sábado, 9 de maio de 2026

Sobre aquele que partiu ou O homem desenraizado (Todorov)

Antiquário na Bulgária com roupas antigas e placas.
Linda Gerbec - Unsplash

Assim como as plantas, todo homem possui raízes. Contudo, diferentemente da flora, o ser humano que se desenraiza tem a capacidade, assim supõe, de seguir  rumos mais longínquos que a matéria vegetal, e construir sua história além do seu local de nascimento.

Quando Tzvetan Todorov retorna à sua terra natal, a Bulgária, ele experimenta o profundo sentimento de estar dépaysé, um despaisado, sem pátria, sem nacionalidade definida. As raízes geográficas continuam lá, mas o sujeito que retorna já não é o mesmo que partiu. E dessa experiência nasce sua obra chamada O homem desenraizado (1996), em francês L'homme dépaysé.

O exilado circunstancial 


Se perco meu lugar de enunciação, não posso mais falar. Eu não falo, logo não existo.

Todorov se define não como um exilado político ou econômico, mas sim um exilado circunstancial. A mais de dois mil quilômetros de Paris, em Sófia, sua partida, ocorreu pela decisão de estudar na capital francesa. A adaptação à França foi gradual, passando lentamente da posição de outsider para insider. Já na Bulgária, o breve retorno foi o bastante para um choque. Ele descobre-se habitado por uma vida interior dividida entre duas culturas e duas sociedades.

A impressão dominante era a de incompatibilidade. Minhas duas línguas, meus dois discursos se pareciam muito, de certa forma; cada um poderia satisfazer à totalidade de minha experiência e nenhum era claramente submisso ao outro. [...] Em Sófia, era a vida na França que me aparecia como sonho e eu sentia esta impossibilidade de voltar atrás que experimentamos ao acordar (p. 21)

Todorov descreve a sensação de ser um "fantasma" ao reencontrar antigos conhecidos, pois as linguagens e os discursos (o francês e o búlgaro) tornam-se incompatíveis dentro de si. Essa dualidade faz com que ele se sinta um estrangeiro em seu próprio país. A identidade se cinde, revelando a complexidade de quem deixou suas raízes para restabelecê-las em novo território. 

As raízes não pertencem somente ao seio familiar, mas também pertencem à cultura e à política, à outra visão teórica, antropológica e sociológica. Mas nenhuma raízes deve, ou deveria, nos impedir de migrar. O deslocar-se é um direito. O homem desenraizado vai perder o conforto de uma única pátria, mas ganhará o mundo através da pluralidade de vozes, ainda que, no retorno, só o reconheçam como aquele que partiu.

Reconheceram-me, aceitaram-me, e retomamos as conversas interrompidas dezoito anos antes. Tudo colaborava para me fazer pensar que esses anos simplesmente não havia existido, que haviam sido um fantasma, um sonho do qual acabava de acordar. [...] Teria desejado o contrário, que não me reconhecessem, que se espantassem com as minhas aparentes mudanças, e experimentei um certo alívio ao telefonar para o adido cultural francês: eu sabia falar francês, não havia sonhado! (p.20)

TODOROV, Tzvetan. O homem desenraízado. Editora Record, 1999. 

 Leia também: A memória e a saudade em “Istambul” (Orhan Pamuk)

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