| Octavio Podestá |
Em Leitores, espectadores e internautas (2008), Néstor García Canclini, antropólogo e escritor argentino, nos convida a transitar por uma leitura fluída e sem cronologia rígida. Em ordem alfabética Canclini nos apresenta uma espécie de glossário dos tempos modernos.
É estranho pensar a antropologia em nossa novíssima ordem mundial. Estamos habituados a enxergar essa ciência à leitura da sociedade do passado. No entanto, Canclini torna sua antropologia didática ao analisar o presente com este título.
A globalização aparece aqui como fruto da modernidade, gerando novos comportamentos que constroem os seres humanos do século XXI - considerando o ano de publicação do livro, na virada do século XX. Nesse cenário, o mundo digital e o ser que o habita são temas centrais. Involuntariamente — ou melhor, automaticamente — nos tornamos, de leitores, espectadores para internautas.
PCTeste projetivo para classificar identidades (nem étnicas, nem de nações, nem de gênero, talvez de gerações diferentes). Com o quê você associa essa sigla: Partido Comunista, personal computer, politicamente correto? (GARCÍA CANCLINI, p. 77)
Construindo o Museu da Globalização
Os objetos culturais da globalização não são fáceis de identificar. Frequentemente não se trata de objetos materiais (quadros, esculturas, livros), nem de objetos especialmente delimitados (como um edifício ou um local histórico), mas, sim, de circuitos e redes de comunicações. (GARCÍA CANCLINI, p. 70)
E como seria o Museu da Globalização? Refletimos sobre a ideia de museu como um acervo do passado. Na proposta de Canclini, contudo, o foco muda. Depois de apresentar um rico glossário fundamentado nos novos tempos, ele finaliza o livro propondo um museu para guardar a globalização.
No mundo globalizado, guardaríamos o futuro ou a nossa construção diária dele. Um museu desse tipo ajudaria a repensar o sentido de colecionar, guardar e descartar.
Para Canclini, a tarefa desse museu (assim como os outros - penso) não deve restringir-se a organizar o passado e torná-lo apresentável, mas sim estimular a leitura do presente. A globalização vem atrelada ao acesso cultural a novos mundos superpotentes, onde a cultura se dispersa, mesclando o Oriente ao Ocidente.
O Museu da Globalização não deve ser apenas um inventário de tensões contemporâneas. Em sua essência, ele celebra a interculturalidade. A curadoria está intrinsecamente ligada à capacidade humana de ultrapassar fronteiras, evidenciando o encontro de estéticas, saberes e tradições.
Mais do que registrar a segmentação do mundo, o Museu da Globalização seria o testemunho de uma sociedade onde a fluidez cultural gera novas formas de identidade e o acesso ao outro deixa de ser uma exceção para se tornar a base da experiência humana moderna.
García Canclini, Néstor. Leitores, espectadores e internautas. São Paulo: Iluminuras, 2008.
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