domingo, 21 de junho de 2026

A Queda (Albert Camus): o solitário e perverso exercício de falar de nós mesmos

Peeter Mudist (1980)

Quantas vezes nos vimos frente à frente com grandes contadores de históriasDaquelas que ouvimos em um bar, sob o efeito de álcool e os sintomas da socialização descontraídaNo início, passamos a duvidar dos causos contados por estes grandes pescadores da contemporaneidade, os humanos demasiadamente faladores.

E então, aquela história que ouvimos, sob a perspectiva de seu próprio locutor, segue sendo uma verdade incontestável, pois não há provas de mentira. Eis que ocorre a nossa percepção de pessoas e fatos a partir de uma verdade desconfiadaSó nos resta acreditar sem ousar dizer: “cale-se, chega de mentir!”.

É num cenário como este que surge Jean-Baptiste Clamence, um advogado já cansado da labuta justiceira e dono de um ego altamente inflamadoA narrativa A Queda (1956), escrita por Albert Camus, é o palco perfeito para este locutor atirar inúmeros episódios de sua vida ao leitor.

sábado, 6 de junho de 2026

¡Ecue-Yamba-O! e a identidade afrocubana por Alejo Carpentier

Foto: Danilo Woznica

Em 1927 Alejo Carpentier (1904-1980) rascunhava na prisão um livro que buscava manifestar a identidade afrocubana do país caribenho. O título da obra era ¡Ecue-Yamba-O!, tradução de Deus seja louvado, na língua Locumí, que tem suas origens no grupo étnico e linguístico Yorubá.

¡Ecue-Yamba-O! foi publicado um pouco mais tarde no exílio do escritor na Espanha, em 1933, cinco anos após Carpentier livrar-se do território cubano regido por oligarcas, em 1928. Este foi o primeiro romance do escritor, que nos traz uma obra que mescla raízes africanas ao cotidiano moldado pelo colonialismo europeu. A obra é um recorte mínimo de situações e personagens cobertos do adocicado suor dos canaviais e o misticismo que sustenta a espiritualidade Santería.

Acrescento também, ¡Ecue-Yamba-O!  sendo um descritivo de uma Cuba latinoafricana que resiste às imposições imperiais - hasta siempre, por sinal.