Em A louca da casa (2003), a escritora madrileña Rosa Montero escreve um extenso ensaio sobre a "loucura" de escritoras e escritores. Ou melhor, sobre as idiossincrasias desta classe artística tão angustiada e muito criativa.
O conteúdo do livro é um híbrido de entretenimento e informação. La loca de la casa divide-se em autobiografia, ensaio e até uma espécie de autoajuda para escritores que buscam um lugar, seja em uma mesa na Flip ou no ranking BookInfo.
Neste livro, Rosa Montero faz paralelos com escritores contemporâneos e clássicos, expondo fatos sobre os nomes mais renomados, feito uma fofoca literária, revelando também os monstros que habitam a mente de quem escreve, como o mercado editorial e o bloqueio criativo.
O mercado editorial asfixiante
Existe um mercado que pode, silenciosamente, aniquilar ou moldar criadores. Existe um mercado editorial que pode, silenciosamente, aniquilar ou moldar escritores.
Viver às custas de um mercado editorial que nos deixa louca é estar sempre disposta a encarar o fracasso a cada esquina. Já está incrustado até mesmo no cinema a figura do escritor decadente, esfumaçado pelo cigarro, totalmente tragado pelo rancor.
A máxima contemporânea "quem não é visto, não é lembrado" cria uma pressão imensa pela visibilidade, muitas vezes em detrimento da qualidade.
Há obras horrorosas que se vendem até dizer chega e livros ótimos que quase não circulam (o que não quer dizer, naturalmente, que livros bons sejam por definição aqueles que não vendem e livros ruins os que vendem: esta é outra estupidez do mesmo calibre, que esteve na moda alguns anos atrás). Hoje tudo empurra, seduz, espicaça e pressiona para vender, vender e vender, caso contrário, você não existe. (p. 73)
Essa realidade atinge o escritor em seu círculo mais íntimo. Seus amigos perguntam o que você escreve, mas raramente leem. A família sabe que você escreve, mas não faz questão de apreciar o que salta loucamente das nossas têmporas.
É neste caminho que devemos estar dispostas a trilhar.
A palavra do escritor
Rosa nos questiona sobre o que leva à persistência de escrever. Para quem escrevemos?
O ofício literário é extremamente paradoxal: é verdade que você escreve em primeiro lugar para si mesmo, para o leitor que tem dentro de si, ou então porque não pode evitar, porque não consegue suportar a vida sem entretê-la com fantasias; mas, ao mesmo tempo, você precisa peremptoriamente ser lido; e não por um único leitor, por mais refinado e inteligente que ele seja, por mais que você confie em seu critério, e sim por um número maior de pessoas, muito maior, na verdade, muitíssimo mais gente, uma horda populosa, porque nossa forma de leitores é uma avidez profunda que nunca se sacia, uma exigência sem limites que beira a loucura e que sempre considerei muito curiosa. Resta saber de onde vem essa necessidade absoluta que transforma todos os escritores em eternos indigentes do olhar alheio. (p. 51)
Tratando-se ainda deste ofício, Montero vai tratar do vazio que assola a criatividade. O fantasma do bloqueio criativo e a pressão pelo romance estruturado, contado linha a linha, assombram as almas criativas. O escritor argentino César Aira aparece para falar deste cansaço:
Afinal percebi onde estava o problema: na chamada invenção dos traços circunstanciais, quer dizer, os dados precisos de lugar, hora, personagens, roupa, gestos, da dramatização propriamente dita. Começou a me parecer ridículo, infantil, esse detalhismo da fantasia, essas informações sobre coisas que na verdade não existem. E sem traços circunstanciais não existe romance, ou, então, existe de maneira abstrata e descarnada e não vale a pena. (p. 61)
A palavra da escritora
Rosa Montero critica a ideia de literatura feminina como algo menor ou separado. Para ela, essa categoria nasce do machismo cultural, que trata a escrita das mulheres como um apêndice
Esse capítulo à parte quando se fala em literatura feita por mulheres presume que o que uma mulher escreve interessa apenas a mulheres. Montero defende que a literatura escrita por mulheres é tão universal quanto qualquer outra, pois trabalha com a mesma matéria humana fundamental. É sobre ele e ela, e elas e eles.É evidente que mulheres e homens da mesma época e da mesma cultura compartilham uma infinidade de coisas, têm mitos e fantasmas comuns. Mas nós, mulheres, possuímos um núcleo de vivências específicas pelo fato de sermos mulheres, da mesma maneira que os homens possuem seu espaço especial. Por exemplo: os homens passaram milênios construindo literariamente certos modelos de mulher que na realidade não correspondem a como nós somos, e sim a como eles nos veem, através das diversas fantasias do seu inconsciente: a mulher como perigo (a vampe que suga a energia e a vida do homem), a mulher terra-maga-mãe, a mulher menina-bonita-boboca estilo Marilyn... Não há nada a objetar em tudo isto, porque esses protótipos existem mesmo dentro da cabeça dos homens, e tirá-los da sombra enriquece a descrição do mundo e o entendimento do que todos nós somos. Pois bem, agora é a vez das mulheres fazerem o mesmo. (p.111)
Eterna literata
Deixar de escrever pode ser loucura, o caos, o sofrimento; mas deixar de ler é a morte instantânea. Um mundo sem livros é um mundo sem atmosfera, como Marte. Um lugar impossível, inabitável. De maneira que muito antes da escrita vem a leitura, e nós, romancistas, somos leitores derrubados e transbordados por nossa fome ansiosa de palavras. (p. 127)



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