O ano é 1974. Augusto Roa Bastos está exilado na Argentina e finalizando Yo el Supremo (Eu o Supremo). Ele não retornaria tão cedo ao seu país, o Paraguai, na época, sob o comando militar de Alfredo Stroessner, mais um na história das Ditaduras Latino-americanas.
A distância geográfica, no entanto, serviu para aproximá-lo da essência trágica de sua terra natal. Saudades? Não sei. De lá, Roa Bastos escreve com remorso e ironia uma das obras mais célebres da literatura paraguaia, que sequer foi publicada em seu país de origem.
Contexto histórico
Em Yo el Supremo, voltamos ao Paraguai do século XIX, governado por José Gaspar Rodríguez de Francia, popularmente chamado de Karaí-Guazú (Grande Senho em Guarani). Roa Bastos escreve sobre um ditador do século XIX sob a sombra de outra ditadura, a de Alfredo Stroessner (1954-1989). É nesse jogo de espelhos temporais que nasce este romance.
O livro nos lembra e incita a pesquisa de um gran passado. Houve um tempo em que Assunção era a capital da Provincia Gigante de las Indias e de lá partiram as expedições que fundaram mais de 70 cidades, como Córdoba, na Argentina, e Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.
Infelizmente, a história seguinte foi marcada pela devastação. O Paraguai carrega as cicatrizes das ocupações vizinhas - os piores hermanos que uma nação poderia ter - e europeias. Uma nação cuja população foi dizimada por guerras de interesses coloniais e econômicos — culminando na devastação trazida pela Guerra da Tríplice Aliança, onde mulheres, crianças, idosos e um exército inteiro de Guaranis, Guaicurus, Kadiweus e Mbayás foram massacrados.
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| La paraguaya - Juan Manuel Blanes |
É sobre os alicerces desse passado glorioso e trágico que se ergue a figura de José Gaspar Rodríguez de Francia. O Ditador Perpétuo governou até sua própria morte, por longos 26 anos (1814–1840).
Francia foi uma figura controversa, capaz de despertar ódio e admiração. Diferente da imagem clássica do caudilho latino-americano, fazendeiro rico ou o militar truculento, Karaí-Guazú era um homem "letrado". Um ideólogo autossustentável que blindou seu país de tratados internacionais.
O regime do El Supremo foi marcado por um protecionismo. Francia implementou a nacionalização de terras e o monopólio estatal das exportações, garantindo acesso à terra para os camponeses mais pobres. Essas ações estatistas tornaram seu governo um dos mais progressistas e singulares da América Latina naquele período. Uma história que poucos sabem!
Eu o Supremo e a guerrilha pasquineira
A narrativa de Eu o Supremo inicia com a angústia do ditador diante de uma "guerrilha pasquineira". Escritos anônimos e satíricos contra ele aparecem pregados na porta da catedral.
Agora estou certo de reconhecer a letra do escrito anônimo. Escrito com a força torcida de uma mente afetada. Demasiado carregado em sua brevidade o pasquim catedralício! As mesmas palavras expressam diferentes sentidos, conforme o ânimo de quem as pronuncia. (p. 57)
A escrita subversiva, tal como as Cartas Chilenas que circularam em Vila Rica antes da Inconfidência Mineira, transita pelas bandas paraguaias enfurecendo o líder que promete uma resposta. Francia começa a fazer uso da palavra para reiterar seu poder e domínio absoluto sob o Estado paraguaio, ditando tudo a Policarpo Patiño, secretário pessoal e companheiro do ditador do início ao fim da narrativa (e vida).
Ei Patiño, dormistes? Não, excelência! Estou tentando descobrir de quem é a letra. Descobriste? Na verdade, Senhor, apenas suspeitas. Vejo que quanto mais duvidas mais transpiras. Observa o anônimo pelo menos uma vez. Delicada atenção eh ah. Que nome recolhe tua memória? Que figura teu ver-com a-vista sabe-tudo? Que traços escriturários? Tremelicar de pálpebras afiando nas protuberâncias um fiozinho quimérico. Toda pessoa do fide-indigno adianta-se em seu pesado casco para o ainda não sabe o quê que vou lhe dizer. Desesperada esperança de uma comutação. Espanto de um bêbado diante da bunda de uma garrafa vazia. Diz-me: a letra do pasquim não é a minha? Surdo estalo da lupa caindo sobre o papel. Tromba d'água levantando-se da palangana. Impossível, Excelência! Nem como loucura de juízo poderia pensar semelhante coisa de nosso Karaí-Guasú! É preciso pensar sempre em tudo, secretário-secretante. (p. 58)
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| Quando a gente mesma é o poço que exala esta emanação mortal, o forno que cospe ardente fumarada [...], é possível dizer que não nos matamos com nossos próprios vapores? |
Colho outra vez entre papéis a flor-múmia de amaranto. Esfrego-a contra o peito. De novo volta a surgir de suas profundidades o fedor débil; um cheiro, rumor mais do que cheiro. Irradiação magnética que se comunica diretamente com as ondas do cérebro. Tênue corrente que está ali desde ANTES. Só em aparência aroma-fóssil. Nebulosa fora do tempo, do espaço, propagando-se numa velocidade fantástica ao mesmo tempo em vários tempos e espaços simultâneos, paralelos Convergentes-divergentes. Os objetos não têm os aspectos que encontramos neles. Ouço com todo o corpo o que as ondas estão sussurrando eletricamente. Radiações acumuladas vibram no tímpano-amaranto. A tela da memória volta para trás projetando ao contrário infinitos instantes. Cenas, coisas, fatos, que se superpõem sem se misturarem. Nitidamente. Momentum. Onda luminosa. Contínua. Constante. Basta pois que um se resguarde por trás de um espelho para contemplar sem ser destruído. Embora o choque deste raio infinitesimal de energia, mais tremendo do que dez mil sóis, pudesse fazer em estilhaços o mundo do espelho. O espelho do mundo. (p.163)
A decadência dolorida ao ver seu país declinando junto com sua morte alimenta ainda mais o espírito filosófico do ditador-pensante, que finaliza este romance histórico como se estivesse desolado em sua cadeira Luis XV.
A verdadeira Revolução não devora seus filhos. Dizes que não queres assistir ao desastre da tua Pátria, que tu mesmo preparaste. Morrerás antes. Morrerás essa parte de ti que vê o mortal. Não poderás escapar de ver o que não morre. (p.375)
Dizes que não queres assistir ao desastre da tua Pátria... Morrerás antes. Dito e feito.
O Paraguai de Francia morre quando Francia morre. O conflito contra Brasil, Argentina e Uruguai resultou na aniquilação de 60% da população paraguaia, transformando o legado de ordem e silêncio de Francia em um dos episódios mais sangrentos da história do nosso continente.
¿Mba'épa rehupyty reporojukávo?
¿Qué ganaste con ser homicida?
Ne retâme vy'a'ŷ regueru,
A tu patria infeliz conmover,
Ha ndohasáipa ne akâre ko ka'aguy kañymi
sin pensar que esta selva escondida
Ikatuha nde retekue oñongatu...
tu cadáver podrá recoger...
Reíntera'e, ái, kavaju porâite oñani
En vano ¡ay! el bridón galopaba
20 légua, 200 térâ 1.000,
veinte leguas, doscientas o mil,
Tuguy ojejohéi jave tuguýpe
que si sangre con sangre se lava;
Katuete oĝuahê... nde 12 jasyrundy!!!
ha llegado... tu doce de abril!!!
Ha péicha mitârusu ha ñorairôhára ñarô
Así el joven y bravo guerrero
Póra jyva ári ohoite ha ogue;
del espectro en los brazos huyó;
Ha kavaju ovérogui ojehasávo ñemondýi
y al volver de su espanto el overo
Ijara'ŷre ka'aguýpe ojejuhu ha'eño.
sin su dueño en el bosque se halló.
Trecho em guarani do poema El Espectro, Guaraníme do poeta colombiano Próspero Pereira Gamba. Poema completo disponível aqui.
ROA BASTOS, Augusto. Eu o supremo. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1977.



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