sábado, 6 de junho de 2026

¡Ecue-Yamba-O! e a identidade afrocubana por Alejo Carpentier

Foto: Danilo Woznica

Em 1927 Alejo Carpentier (1904-1980) rascunhava na prisão um livro que buscava manifestar a identidade afrocubana do país caribenho. O título da obra era ¡Ecue-Yamba-O!, tradução de Deus seja louvado, na língua Locumí, que tem suas origens no grupo étnico e linguístico Yorubá.

¡Ecue-Yamba-O! foi publicado um pouco mais tarde no exílio do escritor na Espanha, em 1933, cinco anos após Carpentier livrar-se do território cubano regido por oligarcas, em 1928. Este foi o primeiro romance do escritor, que nos traz uma obra que mescla raízes africanas ao cotidiano moldado pelo colonialismo europeu. A obra é um recorte mínimo de situações e personagens cobertos do adocicado suor dos canaviais e o misticismo que sustenta a espiritualidade Santería.

Acrescento também, ¡Ecue-Yamba-O!  sendo um descritivo de uma Cuba latinoafricana que resiste às imposições imperiais - hasta siempre, por sinal.

domingo, 24 de maio de 2026

A beleza do povo cigano por Bartolomeu Campos de Queirós

Ciganos (1984), do escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012), apresenta de uma maneira muito poética a vida de grupos ciganos em contraponto à vida de um menino de uma pequena cidade. Formas e todas as cores de vida, histórias que passam pela janela, deixando, na estrada, apenas rastros dos cavalos.

Os ciganos aqui no Brasil, também chamados de romani, somam aproximadamente 1 milhão de pessoas. Contrariando o imaginário popular, a literatura e o cinema, muitos ciganos têm residência fixa e nem todos estão cobertos de acessórios e tecidos, colorindo as ruas com adereços e estampas ao estilo Kalderash. Isto porque, é importante dizer, cigano não é, de grosso modo, um estilo de vida, e sim uma etnia. E se tratando de etnia, os ciganos não se diferenciam apenas pelo fator cultural e linguístico, mas também econômico e social, surgindo, entre eles, desde uma pequena elite a grupos marginalizados, de acordo com o antropólogo Frans Moonen (2011).

Os ciganos vão para o céu (1976) Emil Loteanu

sábado, 9 de maio de 2026

Sobre aquele que partiu ou O homem desenraizado (Todorov)

Antiquário na Bulgária com roupas antigas e placas.
Linda Gerbec - Unsplash

Assim como as plantas, todo homem possui raízes. Contudo, diferentemente da flora, o ser humano que se desenraiza tem a capacidade, assim supõe, de seguir  rumos mais longínquos que a matéria vegetal, e construir sua história além do seu local de nascimento.

Quando Tzvetan Todorov retorna à sua terra natal, a Bulgária, ele experimenta o profundo sentimento de estar dépaysé, um despaisado, sem pátria, sem nacionalidade definida. As raízes geográficas continuam lá, mas o sujeito que retorna já não é o mesmo que partiu. E dessa experiência nasce sua obra chamada O homem desenraizado (1996), em francês L'homme dépaysé.

domingo, 26 de abril de 2026

Sobre cicatriz e força: Mulheres que correm com os lobos (Clarissa Pinkola Estés)

Colagem de mulher vitoriana segurando um machado
Mulheres que correm com os lobos talvez seja o maior e mais incisivo tratado de sobrevivência (feminina) já publicado sob o rótulo da autoajuda. Escrito pela psicóloga e psicanalista Clarissa Pinkola Estés e publicado no ano de1989, a obra apresenta um panorama libertador da força feminina, transitando da dor ao renascimento com uma precisão que é, ao mesmo tempo, poética e biológica.

Esses escritos nascem de uma urgência: falar sobre a força indomável que nos habita. Em sua maioria, as mulheres nascem, crescem e morrem em redutos turbulentos, onde a alma e sua psique ferida, submetida a repressões estruturais, despedeça-se pouco a pouco. Para romper, como tantas outras escritoras já fizeram, Clarissa publica este chamado selvagem — ou melhor: o eco do nosso próprio chamado selvagem adormecido. O que o sistema nos deixa, afinal é a pó e montanhas de culpa por desejarmos, imensamente, a liberdade.

Meu corpo não é separado da terra, meus pés foram feitos para firmar minha posição, meu corpo tem a forma de um recipiente, feito para conter muito.

domingo, 12 de abril de 2026

As lentes sujas da América Latina, Ninho da Serpente e Pedro Juan Gutiérrez

Feira de rua em Havana. Frutas tropicais à venda.
O livro O ninho da serpente: memórias do filho do sorveteiro (2006) é mais uma ficção autobiográfica escrita por Pedro Juan Gutiérrez. A história se passa no auge da Revolução Cubana, acompanhando um adolescente que vive em Matanzas, cidade a pouco mais de 80 quilômetros da capital, cenário da obra mais conhecida do escritor, Trilogia suja de Havana.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Henry Miller e o Mundo do Sexo

telefone com frase
Foto de Wolfgang Rottmann - Unsplash
Suave é a tarde solitária e também a noite dos amantes.

Publicado originalmente em 1940 por Henry Miller, livro O Mundo do Sexo não é o kama sutra e muito longe disso. Não é uma ode ao sexo e ou à sexualidade, à libertinagem ou à saudosa boêmia dos escritores e artistas.

Para Henry Miller, o mundo é um território vasto, sujo e profundamente solitário. Miller, o eterno outsider boêmio e entusiasta da cultura anti-ocidentalismo, utiliza o sexo como uma lente para observar algo muito mais complexo: nós. Ou melhor: Eu. Quer dizer, melhor deixar assim, sobre nós, seres humanos de coração pulsante.

A verdadeira vida começa quando estamos sozinhos, frente à frente com esse grande desconhecido que somos nós mesmos.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Kafka na construção da Muralha da China

Neste relato fictício do escritor tcheco Franz Kafka, a memória se funde à arquitetura para narrar a construção de uma das sete maravilhas do mundo, a Muralha da China. Dois mil anos de construção, mais de 20 mil quilômetros e mais de um milhão de trabalhadores envolvidos, tanto na construção de pedras sobre pedras como em desenho projetado ainda nos anos 221 a.C

Como um narrador que viveu de perto, ele descreve os esforços monumentais para edificar a barreira que protegeria o império. O autor resgata a visão de uma criança e suas lembranças das projeções que antecederam a construção da Muralha da China.

sábado, 14 de março de 2026

Mayakovsky: os versos mais revolucionários do mundo

Respeitáveis camaradas, esta leitura é grandiosa e indispensável para todos que sentem o desejo da revolução pulsar nas veias. Se a revolução tem um poeta, esse poeta é Vladmir Mayakovsky. Se a palavra tem força, ela vem dos versos de Mayakovsky.

Calcula, reflete, mira bem e avança!

Nascido em 7 de março de 1893 em Baghdati, capital da Geórgia - Império Russo, na época -, Mayakovsky era declaradamente comunista e seus versos não negam a causa. Filho de camponeses, a senhora Aleksandra Aleksieievna e de Vladimir Konstantinovitch, após a morte do pai, a família sobreviveu, correndo contra a corrente da miséria em Moscou.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Walden: o maior tratado sobre a liberdade (Thoreau)

Henry David Thoreau (1817-1862) escreveu sobre sua experiência às margens do Lago Walden em Concord, Massachussetts, sua terra natal. Lá, ele vive longe da vida civilizada em sua cabana, tornando-se vizinho de pássaros, esquilos e de toda vida nos bosques.

Foram dois anos de absorção da natureza, desfrute da solidão e, acima de tudo, de um estilo de vida autossustentável. Esse episódio foi em 1845, quando Thoreau era um jovem de 28 anos de idade. Observações sobre a vida selvagem, diários da solidão e solitude, notas sobre despesas e plantio e uma prisão, resultaram em sua única obra oficialmente publicada: Walden ou A vida nos bosques.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A infância em "Um, dois e já" - Inés Bortagaray

Senti a garganta criar nós familiares lendo Um, dois e já (2010) da escritora uruguaia Inés Bortagaray. A infância sempre é um terreno nostálgico e nesse livro não é diferente.

Um, dois e já é narrado pela irmã do meio, que descreve o trajeto da viagem em família. A narrativa se divide entre descrições de tempo-espaço, devaneios e memórias.

Vejo um poste que passa e vai embora até que vejo outro poste que passas e vai embora, mas nunca totalmente, porque na ida deixa um rastro. O rastro é o poste em movimento, o poste corrido, varrido, que continua numa fileira de postes-fantasmas de pé entre poste e poste verdadeiro. O verdadeiro segue na forma de vários fantasmas até que outro verdadeiro anuncia que há algo real, afinal de contas. Amanhece. Às vezes no alto de um poste há um ninho de joão-de-barro. É a interrupção do ritmo sequencial de postes. Entre um e outro (entre poste e poste) há fios: eletricidade. Fios pretos e tensionados no alto, desenhando uma partitura de linhas que sobem e descem, como num monitor de eletrocardiograma.  (p.7)