segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Catequese Poética: lugar de poesia é na boate ou na camiseta

 Um grupo de poetas busca retirar a arte da palavra dos espaços intelectuais, onde a elite reina mais do que a própria poesia. Poderíamos muito bem estar falando da Semana de Arte Moderna de 1922, mas, felizmente, a revolta artística não morrera por ali, décadas mais tarde, novos ventos marginais soprariam pela nossa terra brasilis.

Se na década de 20, um grupo de artistas e escritores propunha uma ruptura definitiva com as artes clássicas e a literatura moldada pela visão eurocentrista, os contemporâneos da Catequese Poética tinham como defesa a retirada da poesia dos espaços e objetos de ordem intelectual - o livro.

Repudiando as pudicas e borolentas fórmulas do comportamento livresco e do poeta-livro (impresso expresso e oprimido) - quer dizer, limitadas às reveladoras cifras do analfabetismo e do desinterêsse constatado, a CATEQUESE POÉTICA propõe e realiza, ao contrário dos ditos participantes (teóricos de cabina e cabos sem esperança), o desentranhamento do poeta e seu ressurgimento no quadro social. Ou seja: arrancamos o poeta do livro-cabeceira-estante-mofada e o colocamos frente a frente a um público, seja na praça da Sé, no viaduto do Chá, no colégio Y, na faculdade Z ou no teatro AB. RUBENS JARDIM

Capa do livro com foto dos integrantes do movimento literário Catequese Poética

sábado, 1 de agosto de 2026

Tout Seul: Chabouté e a narrativa ilustrada da solidão

Capa do livro Solitário, do cartunista francês Chaboute

Existem infinitas formas de descrever a solidão, seja de maneira cômica, trágica ou profundamente melancólica. Assim como existem inúmeras formas de ilustrá-la, como quartos vazios, cadeiras ou uma pessoa sozinha em meio a uma paisagem bucólica.

A novela gráfica Tout seul ou Solitário (2017), do quadrinista francês Christophe Chabouté apresenta de maneira sensível esse aspecto inerente a nós ou ao nosso destino, a solidão.

Alguns, pela força da roda dos dias, nascem, crescem e morrem dentro dela. Solitário é sobre isto. Um livro de poucas palavras, de fato, em que as ilustrações combinam-se a expressões e ao cenário longíquo cercado de gaivotas - os seres mais livres de toda esta história.

O protagonista reside desde seu nascimento em um farol remoto e ilhado, recebendo mantimentos uma vez por semana de um barqueiro conhecido de seu falecido pai. A estranheza de seu corpo e rosto fez com que seu pai lhe protegesse, isolando-o da sociedade, temendo que ele sofresse pela sua aparência. Beirando os 50, a mundo lá fora lhe parecia um infinito horizonte.

sábado, 11 de julho de 2026

Qualquer vida pode ser um drama: o Teatro Playback por Clarice Siewert

Quando histórias não-oficiais viram espetáculos, nos questionamos se qualquer vida pode virar, de fato, um drama. Se alguém lhe pedisse para encenar sem aviso prévio, lhe pedindo para representar à sua maneira um relato que você acabou de ouvir, você entraria em desespero, faria sem esforço ou pediria a contribuição de mais pessoas?

Jogos que exigem dramatização, sobretudo improvisada, muitas vezes revelam a necessidade profunda do coletivo. O Teatro Playback, enquanto uma modalidade contemporânea do teatro, nascido da improvisação, é uma demonstração de como este coletivo pode costurar uma cena perfeita - ou boa o bastante para contagiar a plateia.

domingo, 21 de junho de 2026

A Queda (Albert Camus): o solitário e perverso exercício de falar de nós mesmos

Peeter Mudist (1980)

Quantas vezes nos vimos frente à frente com grandes contadores de históriasDaquelas que ouvimos em um bar, sob o efeito de álcool e os sintomas da socialização descontraídaNo início, passamos a duvidar dos causos contados por estes grandes pescadores da contemporaneidade, os humanos demasiadamente faladores.

E então, aquela história que ouvimos, sob a perspectiva de seu próprio locutor, segue sendo uma verdade incontestável, pois não há provas de mentira. Eis que ocorre a nossa percepção de pessoas e fatos a partir de uma verdade desconfiadaSó nos resta acreditar sem ousar dizer: “cale-se, chega de mentir!”.

É num cenário como este que surge Jean-Baptiste Clamence, um advogado já cansado da labuta justiceira e dono de um ego altamente inflamadoA narrativa A Queda (1956), escrita por Albert Camus, é o palco perfeito para este locutor atirar inúmeros episódios de sua vida ao leitor.

sábado, 6 de junho de 2026

¡Ecue-Yamba-O! e a identidade afrocubana por Alejo Carpentier

Foto: Danilo Woznica

Em 1927 Alejo Carpentier (1904-1980) rascunhava na prisão um livro que buscava manifestar a identidade afrocubana do país caribenho. O título da obra era ¡Ecue-Yamba-O!, tradução de Deus seja louvado, na língua Locumí, que tem suas origens no grupo étnico e linguístico Yorubá.

¡Ecue-Yamba-O! foi publicado um pouco mais tarde no exílio do escritor na Espanha, em 1933, cinco anos após Carpentier livrar-se do território cubano regido por oligarcas, em 1928. Este foi o primeiro romance do escritor, que nos traz uma obra que mescla raízes africanas ao cotidiano moldado pelo colonialismo europeu. A obra é um recorte mínimo de situações e personagens cobertos do adocicado suor dos canaviais e o misticismo que sustenta a espiritualidade Santería.

Acrescento também, ¡Ecue-Yamba-O!  sendo um descritivo de uma Cuba latinoafricana que resiste às imposições imperiais - hasta siempre, por sinal.

domingo, 24 de maio de 2026

A beleza do povo cigano por Bartolomeu Campos de Queirós

Ciganos (1984), do escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012), apresenta de uma maneira muito poética a vida de grupos ciganos em contraponto à vida de um menino de uma pequena cidade. Formas e todas as cores de vida, histórias que passam pela janela, deixando, na estrada, apenas rastros dos cavalos.

Os ciganos aqui no Brasil, também chamados de romani, somam aproximadamente 1 milhão de pessoas. Contrariando o imaginário popular, a literatura e o cinema, muitos ciganos têm residência fixa e nem todos estão cobertos de acessórios e tecidos, colorindo as ruas com adereços e estampas ao estilo Kalderash. Isto porque, é importante dizer, cigano não é, de grosso modo, um estilo de vida, e sim uma etnia. E se tratando de etnia, os ciganos não se diferenciam apenas pelo fator cultural e linguístico, mas também econômico e social, surgindo, entre eles, desde uma pequena elite a grupos marginalizados, de acordo com o antropólogo Frans Moonen (2011).

Os ciganos vão para o céu (1976) Emil Loteanu

sábado, 9 de maio de 2026

Sobre aquele que partiu ou O homem desenraizado (Todorov)

Antiquário na Bulgária com roupas antigas e placas.
Linda Gerbec - Unsplash

Assim como as plantas, todo homem possui raízes. Contudo, diferentemente da flora, o ser humano que se desenraiza tem a capacidade, assim supõe, de seguir  rumos mais longínquos que a matéria vegetal, e construir sua história além do seu local de nascimento.

Quando Tzvetan Todorov retorna à sua terra natal, a Bulgária, ele experimenta o profundo sentimento de estar dépaysé, um despaisado, sem pátria, sem nacionalidade definida. As raízes geográficas continuam lá, mas o sujeito que retorna já não é o mesmo que partiu. E dessa experiência nasce sua obra chamada O homem desenraizado (1996), em francês L'homme dépaysé.

domingo, 26 de abril de 2026

Sobre cicatriz e força: Mulheres que correm com os lobos (Clarissa Pinkola Estés)

Colagem de mulher vitoriana segurando um machado
Mulheres que correm com os lobos talvez seja o maior e mais incisivo tratado de sobrevivência (feminina) já publicado sob o rótulo da autoajuda. Escrito pela psicóloga e psicanalista Clarissa Pinkola Estés e publicado no ano de1989, a obra apresenta um panorama libertador da força feminina, transitando da dor ao renascimento com uma precisão que é, ao mesmo tempo, poética e biológica.

Esses escritos nascem de uma urgência: falar sobre a força indomável que nos habita. Em sua maioria, as mulheres nascem, crescem e morrem em redutos turbulentos, onde a alma e sua psique ferida, submetida a repressões estruturais, despedeça-se pouco a pouco. Para romper, como tantas outras escritoras já fizeram, Clarissa publica este chamado selvagem — ou melhor: o eco do nosso próprio chamado selvagem adormecido. O que o sistema nos deixa, afinal é a pó e montanhas de culpa por desejarmos, imensamente, a liberdade.

Meu corpo não é separado da terra, meus pés foram feitos para firmar minha posição, meu corpo tem a forma de um recipiente, feito para conter muito.

domingo, 12 de abril de 2026

As lentes sujas da América Latina, Ninho da Serpente e Pedro Juan Gutiérrez

Feira de rua em Havana. Frutas tropicais à venda.
O livro O ninho da serpente: memórias do filho do sorveteiro (2006) é mais uma ficção autobiográfica escrita por Pedro Juan Gutiérrez. A história se passa no auge da Revolução Cubana, acompanhando um adolescente que vive em Matanzas, cidade a pouco mais de 80 quilômetros da capital, cenário da obra mais conhecida do escritor, Trilogia suja de Havana.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Henry Miller e o Mundo do Sexo

telefone com frase
Foto de Wolfgang Rottmann - Unsplash
Suave é a tarde solitária e também a noite dos amantes.

Publicado originalmente em 1940 por Henry Miller, livro O Mundo do Sexo não é o kama sutra e muito longe disso. Não é uma ode ao sexo e ou à sexualidade, à libertinagem ou à saudosa boêmia dos escritores e artistas.

Para Henry Miller, o mundo é um território vasto, sujo e profundamente solitário. Miller, o eterno outsider boêmio e entusiasta da cultura anti-ocidentalismo, utiliza o sexo como uma lente para observar algo muito mais complexo: nós. Ou melhor: Eu. Quer dizer, melhor deixar assim, sobre nós, seres humanos de coração pulsante.

A verdadeira vida começa quando estamos sozinhos, frente à frente com esse grande desconhecido que somos nós mesmos.