sábado, 19 de setembro de 2026

Os últimos anos de Pablo Neruda em O carteiro e o poeta (Skármeta)

Em junho de 1969, Mario Jimenéz trocou o ofício de pescador pelo de carteiro. Com sua bicicleta, ele entregava cartas, encomendas e telegramas na enseada Isla Negra, onde a maioria era analfabeta. No entanto, com Pablo Neruda na vizinhança, era muito claro que as cartas tinham um destinatário em especial (e único) naquela porção norte de San Antonio, no litoral do Chile.

À beira do Oceano Pacífico é o lugar de fala e leitura de Ardiente Paciencia, o primeiro título da obra que, posteriormente foi alterada para El cartero de Neruda (O Carteiro e o Poeta), publicada em 1985 por Antonio Skármeta (1940-2024). Contemporâneo de Pablo Neruda (1904-1973), Skármeta nasceu em Antofagasta nos anos 40 e, neste livro, fica claro a admiração pelo poeta chileno.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Para entender o agora: Sistemas de Comunicação Popular (Joseph Luyten)

colagem digital várias telas de computador
delírio recortado

Comunicação. É preciso, para quem vive dela, entendê-la. Por isso, a leitura de Sistemas de Comunicação Popular faz-se necessária. Ela é um fenômeno inato a nós, viva, logo, em constante alternância, seja para evoluir, seja para regredir em termos de progresso e seus efeitos positivos na sociedade.

Em 1988, o professor holandês, radicado no Brasil, Joseph Luyten (1941-2006) publicou o livro Sistemas de Comunicação Popular, mais uma para a vasta coleção da Editora Ática. Essa é uma obra de grande importância para entender não somente a Teoria da Comunicação, como o que a sustenta.

Na época, Luyten poderia ou não prever o progresso excessivo e a forma mais curiosa e assustadora que seu objeto de estudo se tomaria. Um verdadeiro Frankenstein. 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Entre dores e Dolores: Ithálo Furtado

Viver é assassinar, a todo instante, os males da hora já gasta.

Dolores (e os remédios pra dormir) é um romance profundamente introspectivo, uma literatura que pesa à mente pela sua delicadeza problematizadora. Escrito pelo piauense Ithalo Furtado, este seu segundo livro, publicado em 2016, nos apresenta uma série de cartas registrados pela narradora-personagem Vâmila Santisteban.

Diante de sua angústia existencial, Vâmila escreve cartas a destinatários que jamais a responderão, e sequer a lerão. Escreve para David Bowie, a artista plástica Frida Kahlo, o poeta T.S. Eliot... Escreve para nós, suas leitoras, seus leitores.

Brasília, 2025

O que me tornei? O que fiz com a criança que sonhava absurdos tão bonitos enquanto todo mundo já dava sinais de fuga? Alguns pegaram o trem e nunca mais voltaram. Outros fincaram suas raízes na estação. Mas, a grande maioria não hesitou em decidir e, com o coração nas mãos, se atirou nos trilhos.

sábado, 5 de setembro de 2026

Abraham Moles e o Kitsch: notas sobre gadgets, supermercados e felicidade

O Kitsch é a mercadoria ordinária, uma secreção artística derivada da venda de produtos de uma sociedade em grandes lojas que assim se transformam, a exemplo das estações de trem, em verdadeiros templos. (p. 10)

Quando o clássico se torna inalcançável, alternativas emergem para permitir que uma parcela menos abastada da sociedade tenha acesso a conteúdos similares — como as queridas réplicas. É nessa mescla de originalidade e mediocridade que o Kitsch surge, não propriamente como um movimento, mas como um apelo estético.

O filósofo francês da estética Kitsch Abraham Moles (1920-1992) nos apresenta a etimologia, o cerne desse estilo glorioso. Kitsch é derivado de kitschen, palavra alemã utilizada na região sul do país para designar a produção de móveis novos a partir de móveis velhos. Outra mescla etimológica, com um tom mais pejorativo, designa trapacear, vender algo diferente do que havia sido acordado. A partir desta definição, é entendível a ideia de arte em sua forma mais vulgar possível. Uma secreção.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Catequese Poética: lugar de poesia é na boate ou na camiseta

 Um grupo de poetas busca retirar a arte da palavra dos espaços intelectuais, onde a elite reina mais do que a própria poesia. Poderíamos muito bem estar falando da Semana de Arte Moderna de 1922, mas, felizmente, a revolta artística não morrera por ali, décadas mais tarde, novos ventos marginais soprariam pela nossa terra brasilis.

Se na década de 20, um grupo de artistas e escritores propunha uma ruptura definitiva com as artes clássicas e a literatura moldada pela visão eurocentrista, os contemporâneos da Catequese Poética tinham como defesa a retirada da poesia dos espaços e objetos de ordem intelectual - o livro.

Repudiando as pudicas e borolentas fórmulas do comportamento livresco e do poeta-livro (impresso expresso e oprimido) - quer dizer, limitadas às reveladoras cifras do analfabetismo e do desinterêsse constatado, a CATEQUESE POÉTICA propõe e realiza, ao contrário dos ditos participantes (teóricos de cabina e cabos sem esperança), o desentranhamento do poeta e seu ressurgimento no quadro social. Ou seja: arrancamos o poeta do livro-cabeceira-estante-mofada e o colocamos frente a frente a um público, seja na praça da Sé, no viaduto do Chá, no colégio Y, na faculdade Z ou no teatro AB. RUBENS JARDIM

Capa do livro com foto dos integrantes do movimento literário Catequese Poética

sábado, 1 de agosto de 2026

Tout Seul: Chabouté e a narrativa ilustrada da solidão

Capa do livro Solitário, do cartunista francês Chaboute

Existem infinitas formas de descrever a solidão, seja de maneira cômica, trágica ou profundamente melancólica. Assim como existem inúmeras formas de ilustrá-la, como quartos vazios, cadeiras ou uma pessoa sozinha em meio a uma paisagem bucólica.

A novela gráfica Tout seul ou Solitário (2017), do quadrinista francês Christophe Chabouté apresenta de maneira sensível esse aspecto inerente a nós ou ao nosso destino, a solidão.

Alguns, pela força da roda dos dias, nascem, crescem e morrem dentro dela. Solitário é sobre isto. Um livro de poucas palavras, de fato, em que as ilustrações combinam-se a expressões e ao cenário longíquo cercado de gaivotas - os seres mais livres de toda esta história.

O protagonista reside desde seu nascimento em um farol remoto e ilhado, recebendo mantimentos uma vez por semana de um barqueiro conhecido de seu falecido pai. A estranheza de seu corpo e rosto fez com que seu pai lhe protegesse, isolando-o da sociedade, temendo que ele sofresse pela sua aparência. Beirando os 50, a mundo lá fora lhe parecia um infinito horizonte.

sábado, 11 de julho de 2026

Qualquer vida pode ser um drama: o Teatro Playback por Clarice Siewert

Quando histórias não-oficiais viram espetáculos, nos questionamos se qualquer vida pode virar, de fato, um drama. Se alguém lhe pedisse para encenar sem aviso prévio, lhe pedindo para representar à sua maneira um relato que você acabou de ouvir, você entraria em desespero, faria sem esforço ou pediria a contribuição de mais pessoas?

Jogos que exigem dramatização, sobretudo improvisada, muitas vezes revelam a necessidade profunda do coletivo. O Teatro Playback, enquanto uma modalidade contemporânea do teatro, nascido da improvisação, é uma demonstração de como este coletivo pode costurar uma cena perfeita - ou boa o bastante para contagiar a plateia.

domingo, 21 de junho de 2026

A Queda (Albert Camus): o solitário e perverso exercício de falar de nós mesmos

Peeter Mudist (1980)

Quantas vezes nos vimos frente à frente com grandes contadores de históriasDaquelas que ouvimos em um bar, sob o efeito de álcool e os sintomas da socialização descontraídaNo início, passamos a duvidar dos causos contados por estes grandes pescadores da contemporaneidade, os humanos demasiadamente faladores.

E então, aquela história que ouvimos, sob a perspectiva de seu próprio locutor, segue sendo uma verdade incontestável, pois não há provas de mentira. Eis que ocorre a nossa percepção de pessoas e fatos a partir de uma verdade desconfiadaSó nos resta acreditar sem ousar dizer: “cale-se, chega de mentir!”.

É num cenário como este que surge Jean-Baptiste Clamence, um advogado já cansado da labuta justiceira e dono de um ego altamente inflamadoA narrativa A Queda (1956), escrita por Albert Camus, é o palco perfeito para este locutor atirar inúmeros episódios de sua vida ao leitor.

sábado, 6 de junho de 2026

¡Ecue-Yamba-O! e a identidade afrocubana por Alejo Carpentier

Foto: Danilo Woznica

Em 1927 Alejo Carpentier (1904-1980) rascunhava na prisão um livro que buscava manifestar a identidade afrocubana do país caribenho. O título da obra era ¡Ecue-Yamba-O!, tradução de Deus seja louvado, na língua Locumí, que tem suas origens no grupo étnico e linguístico Yorubá.

¡Ecue-Yamba-O! foi publicado um pouco mais tarde no exílio do escritor na Espanha, em 1933, cinco anos após Carpentier livrar-se do território cubano regido por oligarcas, em 1928. Este foi o primeiro romance do escritor, que nos traz uma obra que mescla raízes africanas ao cotidiano moldado pelo colonialismo europeu. A obra é um recorte mínimo de situações e personagens cobertos do adocicado suor dos canaviais e o misticismo que sustenta a espiritualidade Santería.

Acrescento também, ¡Ecue-Yamba-O!  sendo um descritivo de uma Cuba latinoafricana que resiste às imposições imperiais - hasta siempre, por sinal.

domingo, 24 de maio de 2026

A beleza do povo cigano por Bartolomeu Campos de Queirós

Ciganos (1984), do escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012), apresenta de uma maneira muito poética a vida de grupos ciganos em contraponto à vida de um menino de uma pequena cidade. Formas e todas as cores de vida, histórias que passam pela janela, deixando, na estrada, apenas rastros dos cavalos.

Os ciganos aqui no Brasil, também chamados de romani, somam aproximadamente 1 milhão de pessoas. Contrariando o imaginário popular, a literatura e o cinema, muitos ciganos têm residência fixa e nem todos estão cobertos de acessórios e tecidos, colorindo as ruas com adereços e estampas ao estilo Kalderash. Isto porque, é importante dizer, cigano não é, de grosso modo, um estilo de vida, e sim uma etnia. E se tratando de etnia, os ciganos não se diferenciam apenas pelo fator cultural e linguístico, mas também econômico e social, surgindo, entre eles, desde uma pequena elite a grupos marginalizados, de acordo com o antropólogo Frans Moonen (2011).

Os ciganos vão para o céu (1976) Emil Loteanu