Um, dois e já é narrado pela irmã do meio, que descreve o trajeto da viagem em família. A narrativa se divide entre descrições de tempo-espaço, devaneios e memórias.
Vejo um poste que passa e vai embora até que vejo outro poste que passas e vai embora, mas nunca totalmente, porque na ida deixa um rastro. O rastro é o poste em movimento, o poste corrido, varrido, que continua numa fileira de postes-fantasmas de pé entre poste e poste verdadeiro. O verdadeiro segue na forma de vários fantasmas até que outro verdadeiro anuncia que há algo real, afinal de contas. Amanhece. Às vezes no alto de um poste há um ninho de joão-de-barro. É a interrupção do ritmo sequencial de postes. Entre um e outro (entre poste e poste) há fios: eletricidade. Fios pretos e tensionados no alto, desenhando uma partitura de linhas que sobem e descem, como num monitor de eletrocardiograma. (p.7)
Somos guiadas pelas cenas da Uruguai rural que desemboca no extremo leste do país, nas águas geladas do Atlântico Sul.
Vacas. Postes. Carro branco com motorista sozinho. Carro vermelho com família. Caminhonete com dois homens. Caminhão com vacas. [...] Me tornei especialista em olhar a janela daqui do meio. (p.66)
No percurso de quase cem páginas, Bortagaray me leva junto, apertada no banco detrás do Renault 12. Vamos à praia, ouvindo a euforia dos pequenos e os pais ralhando de quando em quando com os irmãos.
Quando vamos à praia no verão gosto de tomar o primeiro banho de mar e o último banho de mar com muito cuidado e atenção. Amanhã, se não chover, e também se chover, vamos todos à praia, e então vou me aproximar da beira e entrar devagarinho. Sei que o frio da água vai doer, mas não importa. Adoro entrar na água do mar pela primeira vez depois de muito tempo. [...]
Depois, ao sair, eu e minha irmã mais nova fazemos bolinhos de areia. Pegamos sacolas de náilon e botamos areia dentro e depois amassamos a areia dentro das sacolas, dando a forma de comida ou de bife à milanesa. Enquanto amassamos, falamos coisas do tipo bom dia, senhora, como vai?, hoje vamos ensinar os telespectadores a fazer uns deliciosos bifes à milanesa. Enquanto isso, fungamos o catarro que às vezes escorre porque ficamos muito tempo na água. (p.74-75)
Um, dois e já é livro sobre viagem em família, sobre crianças viajando em família e também sobre a insustentável imaginação infantil, que viaja infinitamente, sem destino e livremente.

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