Quando histórias não-oficiais viram espetáculos, nos questionamos se qualquer vida pode virar, de fato, um drama. Se alguém lhe pedisse para encenar sem aviso prévio, lhe pedindo para representar à sua maneira um relato que você acabou de ouvir, você entraria em desespero, faria sem esforço ou pediria a contribuição de mais pessoas?
Jogos que exigem dramatização, sobretudo improvisada, muitas vezes revelam a necessidade profunda do coletivo. O Teatro Playback, enquanto uma modalidade contemporânea do teatro, nascido da improvisação, é uma demonstração de como este coletivo pode costurar uma cena perfeita - ou boa o bastante para contagiar a plateia.
Qualquer vida pode ser um drama, qualquer história pode ser um espetáculo
![]() |
| Susanne Henry (1800) |
Transmitir histórias, lendas e costumes por meio da oralidade é uma prática que remonta aos primórdios, antes mesmo da literatura. Esta era uma forma como as sociedades perpetuavam e perpetuam até hoje a tradição, o conhecimento e a moral. A natureza do teatro playback resgata exatamente esta essência.
Idealizado por Jonathan Fox e sua esposa, Jo Salas, em 1975, nos Estados Unidos, este formato de teatro improvisado nasceu da busca por um teatro imediato e espontâneo. Fox, um entusiasta do teatro experimental, encontrou nas experiências comunitárias, longe dos palcos elitizados, e nas narrativas pessoais a matéria-prima para a cena (Siewert, 2014). Resultando em espetáculos escritos, de certa forma, pelo público e para o público.
Teatro Playback no Brasil
O Teatro Playback chegou ao Brasil na década de 1990 por meio de Antônio Ferrara e da Cia. São Paulo Playback Theatre, grandes pioneiros e referências na técnica no nosso país. Na cena catarinense, em particular na cidade de Joinville, a Dionisos Teatro assumiu um papel fundamental na concretização e difusão desta forma teatral no estado a partir de 2008. Clarice Siewert, autora do livro Nossas Histórias em Cena: Um Encontro com o Teatro Playback (2014) teve e mantém até hoje um papel de extrema importância nesta cena teatral em Santa Catarina.
Quem dá vida às nossas vidas?
![]() |
| Theatre de Divertissments (1897) |
Parafraseando João Cabral de Melo Neto, como um galo sozinho que não tece uma manhã, esta modalidade teatral se faz com o trabalho de autores, atores, instrumentistas e um mediador. Em palco, uma grande equipe faz da fala individual um ato, um espetáculo.
Autores
Nem toda história tem um fim épico ou um gran finale, mas ainda assim merecem ser contadas e, neste caso, encenadas. Com um tema pré-definido ou não, o convidado irá expor algum recorte da sua vida.
Muitas pessoas acreditam que suas vivências não têm relevância, mas tudo se transforma quando são convidadas a sentar na cadeira do narrador e veem suas próprias memórias ganharem drama. Afinal, como destaca Siewert (2014, p. 93), "contar e ver sua história pode ser a tomada de consciência de uma pessoa".
Mestre de cerimônias
O condutor (ou mediador) é quem facilita o diálogo entre a plateia e o elenco. Feito um mestre de cerimônias e entrevistador, é ele quem acolhe a narrativa do autor, explicado acima. Dominando a arte da interação, ele guia a experiência sem fazer parte do círculo dramático dos atores, mas desdobra a fala em cena com seu poder da escuta.
Atores
Entram em cena os atores. No palco de playback, o protagonismo é sempre coletivo. Vestidos de forma igual, os atores se ajudam como os fios de uma trama. Como um galo sozinho não tece uma manhã, um artista sozinho não tece uma peça de teatro playback.
A construção da cena é espontânea, permitindo, às vezes, que a perfeição do acaso e os estímulos subconscientes do elenco reflitam diretamente em suas ações. Assim, o ator de playback transita fluidamente entre o seu próprio self e o do narrador, sempre munido de memórias, identificações e generosidade (Siewert, 2014).
Músicos
O papel do músico é tão importante quanto o do ator, pois o coletivo é o que faz da cena uma arte. O músico, além de atuar, também cria a trilha, divide os momentos com linhas melódicas e dá tom ao ato.
O teatro do cotidiano
O Teatro Playback, com o qual eu tive a oportunidade de me aprofundar literariamente e assistir a uma apresentação, tem o teor democrático que a arte precisa. Ele converte, com sutileza e sensibilidade, a fala ordinária, o comum, vulgar e cotidiano, como uma novela, porém, com autores que jamais imaginariam ver sua vida virar um espetáculo.
Referência:SIEWERT, Clarice Steil. Nossas Histórias em Cena: Um Encontro com o Teatro Playback. Jundiaí, Paco Editorial, 2014.











