sábado, 11 de julho de 2026

Qualquer vida pode ser um drama: o Teatro Playback por Clarice Siewert

Quando histórias não-oficiais viram espetáculos, nos questionamos se qualquer vida pode virar, de fato, um drama. Se alguém lhe pedisse para encenar sem aviso prévio, lhe pedindo para representar à sua maneira um relato que você acabou de ouvir, você entraria em desespero, faria sem esforço ou pediria a contribuição de mais pessoas?

Jogos que exigem dramatização, sobretudo improvisada, muitas vezes revelam a necessidade profunda do coletivo. O Teatro Playback, enquanto uma modalidade contemporânea do teatro, nascido da improvisação, é uma demonstração de como este coletivo pode costurar uma cena perfeita - ou boa o bastante para contagiar a plateia.

Qualquer vida pode ser um drama, qualquer história pode ser um espetáculo 

Susanne Henry (1800)

Transmitir histórias, lendas e costumes por meio da oralidade é uma prática que remonta aos primórdios, antes mesmo da literatura. Esta era uma forma como as sociedades perpetuavam e perpetuam até hoje a tradição, o conhecimento e a moral. A natureza do teatro playback resgata exatamente esta essência. 

Idealizado por Jonathan Fox e sua esposa, Jo Salas, em 1975, nos Estados Unidos, este formato de teatro improvisado nasceu da busca por um teatro imediato e espontâneo. Fox, um entusiasta do teatro experimental, encontrou nas experiências comunitárias, longe dos palcos elitizados, e nas narrativas pessoais a matéria-prima para a cena (Siewert, 2014). Resultando em espetáculos escritos, de certa forma, pelo público e para o público.

Teatro Playback no Brasil 

O Teatro Playback chegou ao Brasil na década de 1990 por meio de Antônio Ferrara e da Cia. São Paulo Playback Theatre, grandes pioneiros e referências na técnica no nosso país. Na cena catarinense, em particular na cidade de Joinville, a Dionisos Teatro assumiu um papel fundamental na concretização e difusão desta forma teatral no estado a partir de 2008. Clarice Siewert, autora do livro Nossas Histórias em Cena: Um Encontro com o Teatro Playback (2014) teve e mantém até hoje um papel de extrema importância nesta cena teatral em Santa Catarina.

Quem dá vida às nossas vidas?

Theatre de Divertissments (1897)

Parafraseando João Cabral de Melo Neto, como um galo sozinho que não tece uma manhã, esta modalidade teatral se faz com o trabalho de autores, atores, instrumentistas e um mediador. Em palco, uma grande equipe faz da fala individual um ato, um espetáculo. 

Autores 

Nem toda história tem um fim épico ou um gran finale, mas ainda assim merecem ser contadas e, neste caso, encenadas. Com um tema pré-definido ou não, o convidado irá expor algum recorte da sua vida.

Muitas pessoas acreditam que suas vivências não têm relevância, mas tudo se transforma quando são convidadas a sentar na cadeira do narrador e veem suas próprias memórias ganharem drama. Afinal, como destaca Siewert (2014, p. 93), "contar e ver sua história pode ser a tomada de consciência de uma pessoa".

Mestre de cerimônias

O condutor (ou mediador) é quem facilita o diálogo entre a plateia e o elenco. Feito um mestre de cerimônias e entrevistador, é ele quem acolhe a narrativa do autor, explicado acima. Dominando a arte da interação, ele guia a experiência sem fazer parte do círculo dramático dos atores, mas desdobra a fala em cena com seu poder da escuta. 

Atores 

Entram em cena os atores. No palco de playback, o protagonismo é sempre coletivo. Vestidos de forma igual, os atores se ajudam como os fios de uma trama. Como um galo sozinho não tece uma manhã, um artista sozinho não tece uma peça de teatro playback

A construção da cena é espontânea, permitindo, às vezes, que a perfeição do acaso e os estímulos subconscientes do elenco reflitam diretamente em suas ações. Assim, o ator de playback transita fluidamente entre o seu próprio self e o do narrador, sempre munido de memórias, identificações e generosidade (Siewert, 2014). 

Músicos 

O papel do músico é tão importante quanto o do ator, pois o coletivo é o que faz da cena uma arte. O músico, além de atuar, também cria a trilha, divide os momentos com linhas melódicas e dá tom ao ato. 

O teatro do cotidiano

O Teatro Playback, com o qual eu tive a oportunidade de me aprofundar literariamente e assistir a uma apresentação, tem o teor democrático que a arte precisa. Ele converte, com sutileza e sensibilidade, a fala ordinária, o comum, vulgar e cotidiano, como uma novela, porém, com autores que jamais imaginariam ver sua vida virar um espetáculo.

Referência: 

SIEWERT, Clarice Steil. Nossas Histórias em Cena: Um Encontro com o Teatro Playback. Jundiaí, Paco Editorial, 2014.  

domingo, 21 de junho de 2026

A Queda (Albert Camus): o solitário e perverso exercício de falar de nós mesmos

Peeter Mudist (1980)

Quantas vezes nos vimos frente à frente com grandes contadores de históriasDaquelas que ouvimos em um bar, sob o efeito de álcool e os sintomas da socialização descontraídaNo início, passamos a duvidar dos causos contados por estes grandes pescadores da contemporaneidade, os humanos demasiadamente faladores.

E então, aquela história que ouvimos, sob a perspectiva de seu próprio locutor, segue sendo uma verdade incontestável, pois não há provas de mentira. Eis que ocorre a nossa percepção de pessoas e fatos a partir de uma verdade desconfiadaSó nos resta acreditar sem ousar dizer: “cale-se, chega de mentir!”.

É num cenário como este que surge Jean-Baptiste Clamence, um advogado já cansado da labuta justiceira e dono de um ego altamente inflamadoA narrativa A Queda (1956), escrita por Albert Camus, é o palco perfeito para este locutor atirar inúmeros episódios de sua vida ao leitor.

sábado, 6 de junho de 2026

¡Ecue-Yamba-O! e a identidade afrocubana por Alejo Carpentier

Foto: Danilo Woznica

Em 1927 Alejo Carpentier (1904-1980) rascunhava na prisão um livro que buscava manifestar a identidade afrocubana do país caribenho. O título da obra era ¡Ecue-Yamba-O!, tradução de Deus seja louvado, na língua Locumí, que tem suas origens no grupo étnico e linguístico Yorubá.

¡Ecue-Yamba-O! foi publicado um pouco mais tarde no exílio do escritor na Espanha, em 1933, cinco anos após Carpentier livrar-se do território cubano regido por oligarcas, em 1928. Este foi o primeiro romance do escritor, que nos traz uma obra que mescla raízes africanas ao cotidiano moldado pelo colonialismo europeu. A obra é um recorte mínimo de situações e personagens cobertos do adocicado suor dos canaviais e o misticismo que sustenta a espiritualidade Santería.

Acrescento também, ¡Ecue-Yamba-O!  sendo um descritivo de uma Cuba latinoafricana que resiste às imposições imperiais - hasta siempre, por sinal.

domingo, 24 de maio de 2026

A beleza do povo cigano por Bartolomeu Campos de Queirós

Ciganos (1984), do escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012), apresenta de uma maneira muito poética a vida de grupos ciganos em contraponto à vida de um menino de uma pequena cidade. Formas e todas as cores de vida, histórias que passam pela janela, deixando, na estrada, apenas rastros dos cavalos.

Os ciganos aqui no Brasil, também chamados de romani, somam aproximadamente 1 milhão de pessoas. Contrariando o imaginário popular, a literatura e o cinema, muitos ciganos têm residência fixa e nem todos estão cobertos de acessórios e tecidos, colorindo as ruas com adereços e estampas ao estilo Kalderash. Isto porque, é importante dizer, cigano não é, de grosso modo, um estilo de vida, e sim uma etnia. E se tratando de etnia, os ciganos não se diferenciam apenas pelo fator cultural e linguístico, mas também econômico e social, surgindo, entre eles, desde uma pequena elite a grupos marginalizados, de acordo com o antropólogo Frans Moonen (2011).

Os ciganos vão para o céu (1976) Emil Loteanu

sábado, 9 de maio de 2026

Sobre aquele que partiu ou O homem desenraizado (Todorov)

Antiquário na Bulgária com roupas antigas e placas.
Linda Gerbec - Unsplash

Assim como as plantas, todo homem possui raízes. Contudo, diferentemente da flora, o ser humano que se desenraiza tem a capacidade, assim supõe, de seguir  rumos mais longínquos que a matéria vegetal, e construir sua história além do seu local de nascimento.

Quando Tzvetan Todorov retorna à sua terra natal, a Bulgária, ele experimenta o profundo sentimento de estar dépaysé, um despaisado, sem pátria, sem nacionalidade definida. As raízes geográficas continuam lá, mas o sujeito que retorna já não é o mesmo que partiu. E dessa experiência nasce sua obra chamada O homem desenraizado (1996), em francês L'homme dépaysé.

domingo, 26 de abril de 2026

Sobre cicatriz e força: Mulheres que correm com os lobos (Clarissa Pinkola Estés)

Colagem de mulher vitoriana segurando um machado
Mulheres que correm com os lobos talvez seja o maior e mais incisivo tratado de sobrevivência (feminina) já publicado sob o rótulo da autoajuda. Escrito pela psicóloga e psicanalista Clarissa Pinkola Estés e publicado no ano de1989, a obra apresenta um panorama libertador da força feminina, transitando da dor ao renascimento com uma precisão que é, ao mesmo tempo, poética e biológica.

Esses escritos nascem de uma urgência: falar sobre a força indomável que nos habita. Em sua maioria, as mulheres nascem, crescem e morrem em redutos turbulentos, onde a alma e sua psique ferida, submetida a repressões estruturais, despedeça-se pouco a pouco. Para romper, como tantas outras escritoras já fizeram, Clarissa publica este chamado selvagem — ou melhor: o eco do nosso próprio chamado selvagem adormecido. O que o sistema nos deixa, afinal é a pó e montanhas de culpa por desejarmos, imensamente, a liberdade.

Meu corpo não é separado da terra, meus pés foram feitos para firmar minha posição, meu corpo tem a forma de um recipiente, feito para conter muito.

domingo, 12 de abril de 2026

As lentes sujas da América Latina, Ninho da Serpente e Pedro Juan Gutiérrez

Feira de rua em Havana. Frutas tropicais à venda.
O livro O ninho da serpente: memórias do filho do sorveteiro (2006) é mais uma ficção autobiográfica escrita por Pedro Juan Gutiérrez. A história se passa no auge da Revolução Cubana, acompanhando um adolescente que vive em Matanzas, cidade a pouco mais de 80 quilômetros da capital, cenário da obra mais conhecida do escritor, Trilogia suja de Havana.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Henry Miller e o Mundo do Sexo

telefone com frase
Foto de Wolfgang Rottmann - Unsplash
Suave é a tarde solitária e também a noite dos amantes.

Publicado originalmente em 1940 por Henry Miller, livro O Mundo do Sexo não é o kama sutra e muito longe disso. Não é uma ode ao sexo e ou à sexualidade, à libertinagem ou à saudosa boêmia dos escritores e artistas.

Para Henry Miller, o mundo é um território vasto, sujo e profundamente solitário. Miller, o eterno outsider boêmio e entusiasta da cultura anti-ocidentalismo, utiliza o sexo como uma lente para observar algo muito mais complexo: nós. Ou melhor: Eu. Quer dizer, melhor deixar assim, sobre nós, seres humanos de coração pulsante.

A verdadeira vida começa quando estamos sozinhos, frente à frente com esse grande desconhecido que somos nós mesmos.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Kafka na construção da Muralha da China

Neste relato fictício do escritor tcheco Franz Kafka, a memória se funde à arquitetura para narrar a construção de uma das sete maravilhas do mundo, a Muralha da China. Dois mil anos de construção, mais de 20 mil quilômetros e mais de um milhão de trabalhadores envolvidos, tanto na construção de pedras sobre pedras como em desenho projetado ainda nos anos 221 a.C

Como um narrador que viveu de perto, ele descreve os esforços monumentais para edificar a barreira que protegeria o império. O autor resgata a visão de uma criança e suas lembranças das projeções que antecederam a construção da Muralha da China.

sábado, 14 de março de 2026

Mayakovsky: os versos mais revolucionários do mundo

Respeitáveis camaradas, esta leitura é grandiosa e indispensável para todos que sentem o desejo da revolução pulsar nas veias. Se a revolução tem um poeta, esse poeta é Vladmir Mayakovsky. Se a palavra tem força, ela vem dos versos de Mayakovsky.

Calcula, reflete, mira bem e avança!

Nascido em 7 de março de 1893 em Baghdati, capital da Geórgia - Império Russo, na época -, Mayakovsky era declaradamente comunista e seus versos não negam a causa. Filho de camponeses, a senhora Aleksandra Aleksieievna e de Vladimir Konstantinovitch, após a morte do pai, a família sobreviveu, correndo contra a corrente da miséria em Moscou.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Walden: o maior tratado sobre a liberdade (Thoreau)

Henry David Thoreau (1817-1862) escreveu sobre sua experiência às margens do Lago Walden em Concord, Massachussetts, sua terra natal. Lá, ele vive longe da vida civilizada em sua cabana, tornando-se vizinho de pássaros, esquilos e de toda vida nos bosques.

Foram dois anos de absorção da natureza, desfrute da solidão e, acima de tudo, de um estilo de vida autossustentável. Esse episódio foi em 1845, quando Thoreau era um jovem de 28 anos de idade. Observações sobre a vida selvagem, diários da solidão e solitude, notas sobre despesas e plantio e uma prisão, resultaram em sua única obra oficialmente publicada: Walden ou A vida nos bosques.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A infância em "Um, dois e já" - Inés Bortagaray

Senti a garganta criar nós familiares lendo Um, dois e já (2010) da escritora uruguaia Inés Bortagaray. A infância sempre é um terreno nostálgico e nesse livro não é diferente.

Um, dois e já é narrado pela irmã do meio, que descreve o trajeto da viagem em família. A narrativa se divide entre descrições de tempo-espaço, devaneios e memórias.

Vejo um poste que passa e vai embora até que vejo outro poste que passas e vai embora, mas nunca totalmente, porque na ida deixa um rastro. O rastro é o poste em movimento, o poste corrido, varrido, que continua numa fileira de postes-fantasmas de pé entre poste e poste verdadeiro. O verdadeiro segue na forma de vários fantasmas até que outro verdadeiro anuncia que há algo real, afinal de contas. Amanhece. Às vezes no alto de um poste há um ninho de joão-de-barro. É a interrupção do ritmo sequencial de postes. Entre um e outro (entre poste e poste) há fios: eletricidade. Fios pretos e tensionados no alto, desenhando uma partitura de linhas que sobem e descem, como num monitor de eletrocardiograma.  (p.7)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

La loca de la casa: o ofício da escrita por Rosa Montero

Foto antiga de uma mão escrevendo.

Em A louca da casa (2003), a escritora madrileña Rosa Montero escreve um extenso ensaio sobre a "loucura" de escritoras e escritores. Ou melhor, sobre as idiossincrasias desta classe artística tão angustiada e muito criativa.

O conteúdo do livro é um híbrido de entretenimento e informação. La loca de la casa divide-se em autobiografia, ensaio e até uma espécie de autoajuda para escritores que buscam um lugar, seja em uma mesa na Flip ou no ranking BookInfo.

Neste livro, Rosa Montero faz paralelos com escritores contemporâneos e clássicos, expondo fatos sobre os nomes mais renomados, feito uma fofoca literária, revelando também os monstros que habitam a mente de quem escreve, como o mercado editorial e o bloqueio criativo.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Sobre ditadores e escritores: Eu o Supremo (Augusto Roa Bastos)

O ano é 1974. Augusto Roa Bastos está exilado na Argentina e finalizando Yo el Supremo (Eu o Supremo). Ele não retornaria tão cedo ao seu país, o Paraguai, na época, sob o comando militar de Alfredo Stroessner, mais um na história das Ditaduras Latino-americanas.

A distância geográfica, no entanto, serviu para aproximá-lo da essência trágica de sua terra natal. Saudades? Não sei. De lá, Roa Bastos escreve com remorso e ironia uma das obras mais célebres da literatura paraguaia, que sequer foi publicada em seu país de origem.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Construindo o Museu da Globalização com Néstor García Canclini

Octavio Podestá

 Em Leitores, espectadores e internautas (2008), Néstor García Canclini, antropólogo e escritor argentino, nos convida a transitar por uma leitura fluída e sem cronologia rígida. Em ordem alfabética Canclini nos apresenta uma espécie de glossário dos tempos modernos.

É estranho pensar a antropologia em nossa novíssima ordem mundial. Estamos habituados a enxergar essa ciência à leitura da sociedade do passado. No entanto, Canclini torna sua antropologia didática ao analisar o presente com este título.