domingo, 26 de abril de 2026

Sobre cicatriz e força: Mulheres que correm com os lobos (Clarissa Pinkola Estés)

Colagem de mulher vitoriana segurando um machado
Mulheres que correm com os lobos talvez seja o maior e mais incisivo tratado de sobrevivência (feminina) já publicado sob o rótulo da autoajuda. Escrito pela psicóloga e psicanalista Clarissa Pinkola Estés e publicado no ano de1989, a obra apresenta um panorama libertador da força feminina, transitando da dor ao renascimento com uma precisão que é, ao mesmo tempo, poética e biológica.

Esses escritos nascem de uma urgência: falar sobre a força indomável que nos habita. Em sua maioria, as mulheres nascem, crescem e morrem em redutos turbulentos, onde a alma e sua psique ferida, submetida a repressões estruturais, despedeça-se pouco a pouco. Para romper, como tantas outras escritoras já fizeram, Clarissa publica este chamado selvagem — ou melhor: o eco do nosso próprio chamado selvagem adormecido. O que o sistema nos deixa, afinal é a pó e montanhas de culpa por desejarmos, imensamente, a liberdade.

Meu corpo não é separado da terra, meus pés foram feitos para firmar minha posição, meu corpo tem a forma de um recipiente, feito para conter muito.

O self selvagem e o reencontro com a psique instintiva ou "para onde foi la loba?"

Parece óbvio demais falar sobre ancestralidade, mas, na prática diária, poucas mulheres têm acesso a espaços e situações que favorecem esse anseio de reconexão. Lembro-me de uma mulher que conheci em 2024 em Minas Gerais, que havia participado de retiros em montanhas com outras mulheres. Lá do alto, buscavam agir de forma puramente ancestral, alimentando-se do necessário, sobrevivência ao frio, a pele e a consciência expostas a catarses que iam de danças eufóricas à melancolia da saudade do lar.

De que te serve o teu mundo interior que desconheces? Talvez, matando-te, o conheças finalmente.

Em um de nossos diálogos, a obra de Clarissa Estés foi o centro da mesa. Concluímos que somos privilegiadas, sim, mas talvez não o bastante para escaparmos ilesas do mundo. Refletimos exatamente como o livro nos instiga a fazer sobre essa resiliência latente e a recriação do nosso self. São processos que nos provocam, um convite irrecusável a renascer - por que não agora?

As mulheres sempre morreram em termos de psíquicos e espirituais por tentar proteger o filho não-aprovado seja ele sua arte, seu amor, sua política, sua prole ou a vida da sua alma.

A autora nos traz uma tarefa de colocarmos na balança o que deve viver e o que precisa morrer em nós pois ela acredita que sem a morte não há lições.

Ao que eu preciso dar mais morte hoje?

O que eu sei que precisa morrer mas hesito em permitir que isso ocorra?

O que precisa morrer em mim para que eu possa amar?

Que parte de mim foi morta ou está agonizando?

Outros questionamentos vão costurando essa terapia literária, ancorada na certeza de que a alma da loba, mesmo atolada na lama, jamais será eliminada. Ela se defende com o próprio instinto canino, detendo o poder absoluto de resistir.

Descubra os corpos, siga os instintos, veja o que estiver vendo, reúna energia psíquica, acabe com a energia destrutiva.

O clã das cicatrizes desarmando os predadores

Uma mulher pode tentar se esconder para não ver as devastações da sua vida, mas o sangramento, a perda de energia da vida, continuará até que ela reconheça a real natureza do predador e o domine.

Munida de seu ofício de escuta analítica, Clarissa mapeou em toda a sua vida situações de mulheres vítimas de predadores. Eles estão incrustados nas engrenagens do patriarcado, enquanto nós, muitas vezes desorientadas, tentamos apenas sobreviver à caçada. 

Mas a culpa já não nos serve como escudo. Aqui, a maior arma é o desapego cirúrgico, o deixar morrer. O que tenta nos silenciar? O que temos a oferecer ao mundo e o que o mundo exige arrancar de nós? 

É necessário que cada um se conheça até o ponto em que não possa mais ser impedido pelo subconsciente de fazer as coisas horríveis, absurdas e estultas que são feitas com tanta frequência.

Através de ricas metáforas, sendo a loba a figura central, a autora ilustra o embate entre a força que nos amordaça e o rugido que se recusa a calar. É um instinto puro que anseia fugir de nossas entranhas.

Séculos de repressão sexual e moral tentaram e tentam nos desmotivar a trilhar nossos próprios caminhos. Mas talvez seja hora de romper as cercas, tomar ar puro e sentir, devagar, o tempo curar as feridas talhadas em nosso corpo.

A maioria das depressões, tédios e confusões errantes da mulher é causada por uma severa restrição da vida da alma, na qual a inovação, o impulso e a criatividade são proibidos ou limitados. 

mulheres que pensam com as nuvens - deliriorecortado
O convite é claro: venha, mulher, relacionar-se sem amarras com a sua própria pele, com os seus sentidos e com as suas profundezas.

Porque, quando finalmente conhecemos a pele que nos habita, conhecemos também a verdadeira liberdade. É o estado absoluto de sentir-se livre e, finalmente, saber que se pode seguir muito bem e, se tiver que ser, só.

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