Em meio à pobreza e à necessidade latente de ascensão que nasce conosco, o jovem atravessa experiências cruas, despertares sexuais e artísticos, elementos tão característicos da obra de Pedro Juan Gutiérrez.
Nada de novo sob o sol. A mesma coisa de sempre. Eu me acotovelando com os vencedores e meu pai era do outro bando, dos perdedores. Por sorte, meu espírito se mantinha longe dessas mesquinharias. Eu era eu. Um átomo livre na galáxia.
Anti-herói dos trópicos
Se nos Estados Unidos temos Holden Caulfield (o menino do O Apanhador no Campo de Centeio, obra-prima de J. D. Salinger) como o grande arquétipo do adolescente subversivo, em Cuba encontramos a energia de um anti-herói que veste uma pele mais latina, muito mais tropical e visceral.
A astúcia de Pedro Juan, o personagem, é, no fundo, a sua ruína. O acúmulo de conhecimento e a compreensão aguda do mundo ao seu redor o sufoca, provando que o ato de pensar é um fardo.
Às vezes sentia inveja das pessoas que não liam. Minha vida estava ficando muito complicada, tentando entender todos aqueles livros. Vivia angustiado. Enquanto isso, os outros deslizavam felizes pelo mundo. Se você não pensa muito, não se atormenta.
Mais do que vítima da guerra contra o imperialismo, ele é um jovem machucado pela própria mente, esmagado pelo peso da bibliografia ocidental que respira nas quatro paredes das academias e em happy hours boêmios dos cafés europeus.
Sempre acreditei que era possível viver com ordem, equilíbrio e medida. Todos me enfiavam isso na cabeça: escola, pais, igreja e imprensa. Pátria, Ordem e Liberdade. Egalité, fraternité, liberté. A vida é pura, bela e perfeita. Como uma revista de decoração de interiores. Tudo se encaixa milimetricamente, não há sujeira à vista.
Pedro Juan Gutiérrez e as lentes sujas da América Latina
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| Gutiérrez documenta a vida latina. |
O escritor possui uma relação íntima com a cidade e com a vida privada caribenha e latino-americana. O resultado é uma prosa que frequentemente soa como páginas arrancadas de um diário íntimo ou crônicas jornalísticas à espera, apenas, de registros fotográficos para ilustrar o que o leitor europeu quer ver. O resultado também é a censura dos seus livros na sua própria pátria, onde vive até hoje.
Lidando de frente com temas indigestos, Gutiérrez já teve um destaque mórbido em ser um dos primeiros escritores cubanos a escrever sobre suicídio. É comum, no entanto, que sua obra seja reduzida ao seu aspecto mais marginal.
Em entrevistas, o próprio autor já fez questão de esclarecer que seu objetivo não é ser o cronista do sexo, das drogas e da vida suja. Sua intenção é documentar a vida em si.
O submundo em suas páginas não é a exaltação de um estilo de vida, é mostrar a salsa dos dias, que jamais vai parar de bailar, seja na ilha ou em qualquer calle, porque bailar é resistir, e resistir é nunca parar.
- Estou indo.
- Buscar outra garrafa? Não, já chega.
- Não vou buscar nada. Vou embora.
- Para onde?
- Não sei.
- Mas...
- Mas nada. Você e eu... isto está uma merda.
- É normal. É o que todo mundo faz.
- Eu não quero fazer o que todo mundo faz.
- Pelo menos procure um trabalho, nós...
- Não organize minha vida e não me dê ordens. Adeus.
Eu saí para a rua, andando sem pressa. Tinha acabado de completar vinte e um anos. Nas costas tinha aquela frase: Born to be free. Ao longe, viam-se as luzes de Havana. Eu me sentia bêbado, desorientado e aturdido. Não sabia o que fazer. Não sabia o que queria, nem para onde ia. Mas não podia parar. Acho que era a única coisa que entendia com clareza: não podia parar. Tinha de continuar caminhando e atravessar a fúria e o horror.
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Fotos: Danilo Woznica



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