domingo, 12 de abril de 2026

As lentes sujas da América Latina, Ninho da Serpente e Pedro Juan Gutiérrez

Feira de rua em Havana. Frutas tropicais à venda.
O livro O ninho da serpente: memórias do filho do sorveteiro (2006) é mais uma ficção autobiográfica escrita por Pedro Juan Gutiérrez. A história se passa no auge da Revolução Cubana, acompanhando um adolescente que vive em Matanzas, cidade a pouco mais de 80 quilômetros da capital, cenário da obra mais conhecida do escritor, Trilogia suja de Havana.

Bandeira de Cuba em prédio na capital Havana
A narrativa acompanha a transição da adolescência para a juventude de Pedro Juan (o personagem cujo o nome é o mesmo do escritor), el hijo del heladero (o filho do sorveteiro). O amadurecimento deste jovem é violentamente acelerado devido à constante luta pela sobrevivência na Cuba dos anos 60, que recém saía da ditadura militar de Fulgêncio Batista, ditador apoiado pelos governo estadunidense, assim como aconteceria na nossa ditatura militar.

Em meio à pobreza e à necessidade latente de ascensão que nasce conosco, o jovem atravessa experiências cruas, despertares sexuais e artísticos, elementos tão característicos da obra de Pedro Juan Gutiérrez.

Nada de novo sob o sol. A mesma coisa de sempre. Eu me acotovelando com os vencedores e meu pai era do outro bando, dos perdedores. Por sorte, meu espírito se mantinha longe dessas mesquinharias. Eu era eu. Um átomo livre na galáxia.

Anti-herói dos trópicos

Se nos Estados Unidos temos Holden Caulfield (o menino do O Apanhador no Campo de Centeio, obra-prima de J. D. Salinger) como o grande arquétipo do adolescente subversivo, em Cuba encontramos a energia de um anti-herói que veste uma pele mais latina, muito mais tropical e visceral.

A astúcia de Pedro Juan, o personagem, é, no fundo, a sua ruína. O acúmulo de conhecimento e a compreensão aguda do mundo ao seu redor o sufoca, provando que o ato de pensar é um fardo. 

Às vezes sentia inveja das pessoas que não liam. Minha vida estava ficando muito complicada, tentando entender todos aqueles livros. Vivia angustiado. Enquanto isso, os outros deslizavam felizes pelo mundo. Se você não pensa muito, não se atormenta.

Mais do que vítima da guerra contra o imperialismo, ele é um jovem machucado pela própria mente, esmagado pelo peso da bibliografia ocidental que respira nas quatro paredes das academias e em happy hours boêmios dos cafés europeus.

Sempre acreditei que era possível viver com ordem, equilíbrio e medida. Todos me enfiavam isso na cabeça: escola, pais, igreja e imprensa. Pátria, Ordem e Liberdade. Egalité, fraternité, liberté. A vida é pura, bela e perfeita. Como uma revista de decoração de interiores. Tudo se encaixa milimetricamente, não há sujeira à vista.

Pedro Juan Gutiérrez e as lentes sujas da América Latina

Senhora cubana olhando a rua pela sacada em Havana.
Gutiérrez documenta a vida latina.
A literatura de Pedro Juan Gutiérrez vem com influências de Henry Miller e Truman Capote. Inevitavelmente, a crítica tende a comparar o escritor cubano a Charles Bukowski, o velho safado.

O escritor possui uma relação íntima com a cidade e com a vida privada caribenha e latino-americana. O resultado é uma prosa que frequentemente soa como páginas arrancadas de um diário íntimo ou crônicas jornalísticas à espera, apenas, de registros fotográficos para ilustrar o que o leitor europeu quer ver. O resultado também é a censura dos seus livros na sua própria pátria, onde vive até hoje.

Lidando de frente com temas indigestos, Gutiérrez já teve um destaque mórbido em ser um dos primeiros escritores cubanos a escrever sobre suicídio. É comum, no entanto, que sua obra seja reduzida ao seu aspecto mais marginal.

Em entrevistas, o próprio autor já fez questão de esclarecer que seu objetivo não é ser o cronista do sexo, das drogas e da vida suja. Sua intenção é documentar a vida em si.

O submundo em suas páginas não é a exaltação de um estilo de vida, é mostrar a salsa dos dias, que jamais vai parar de bailar, seja na ilha ou em qualquer calle, porque bailar é resistir, e resistir é nunca parar. 

- Estou indo.

- Buscar outra garrafa? Não, já chega.

- Não vou buscar nada. Vou embora.

- Para onde?

- Não sei.

- Mas...

- Mas nada. Você e eu... isto está uma merda.

- É normal. É o que todo mundo faz.

- Eu não quero fazer o que todo mundo faz.

- Pelo menos procure um trabalho, nós...

- Não organize minha vida e não me dê ordens. Adeus.

Eu saí para a rua, andando sem pressa. Tinha acabado de completar vinte e um anos. Nas costas tinha aquela frase: Born to be free. Ao longe, viam-se as luzes de Havana. Eu me sentia bêbado, desorientado e aturdido. Não sabia o que fazer. Não sabia o que queria, nem para onde ia. Mas não podia parar. Acho que era a única coisa que entendia com clareza: não podia parar. Tinha de continuar caminhando e atravessar a fúria e o horror.

✌✌✌

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Fotos: Danilo Woznica

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