segunda-feira, 30 de março de 2026

Henry Miller e o Mundo do Sexo

telefone com frase
Foto de Wolfgang Rottmann - Unsplash
Suave é a tarde solitária e também a noite dos amantes.

Publicado originalmente em 1940 por Henry Miller, livro O Mundo do Sexo não é o kama sutra e muito longe disso. Não é uma ode ao sexo e ou à sexualidade, à libertinagem ou à saudosa boêmia dos escritores e artistas.

Para Henry Miller, o mundo é um território vasto, sujo e profundamente solitário. Miller, o eterno outsider boêmio e entusiasta da cultura anti-ocidentalismo, utiliza o sexo como uma lente para observar algo muito mais complexo: nós. Ou melhor: Eu. Quer dizer, melhor deixar assim, sobre nós, seres humanos de coração pulsante.

A verdadeira vida começa quando estamos sozinhos, frente à frente com esse grande desconhecido que somos nós mesmos.

Pessoa em fundo de nuvens com livro no rosto.
Colagem autoral
O mundo (do sexo) 

A escrita de Miller está longe de ser visceral como Bukowski, mas sinto uma vulgaridade intimista que atravessa páginas, cenas da cidade perversa e momentos de profundo questionamento existencial. Uma descoberta de quem somos.

Como todos os homens eu sou o meu pior inimigo. Como muitos poucos homens, porém, também sei que sou minha única salvação.

Em O Mundo do Sexo, Henry Miller nos apresenta peças literárias rudimentares que nos lembram que o sexo pode ser algo triste. Ele nos recorda da solidão humana fundamental. Diferente da solitude cyberromantizada nos dias de hoje, Miller vai tratar da problemática existencial de viver. 

As relações amorosas são, muitas vezes, tentativas desesperadas de fugir de nós mesmos. Transferimos para o outro a carga de um ego que não sabe autosuprir-se. O sexo entra em cena, mas nem sempre para transformar ou curar a dor lasciva do agora.

O amor é o drama cuja essência deve ser completa, unificada. Sendo pessoal e sem limites, leva o homem a livrar-se da tirania do seu ego. O sexo é impessoal - pode ser ou não identificado com o amor. Pode reforçar e aprofundar o amor, bem como destruí-lo.

A medida que o amor construído socialmente nos transforma, obtendo um filtro alegre e esperançoso da vida, ele pode também nos destruir. Se o amor nos preenche, com linhas do futuro, ele também pode nos esvaziar e tirar o melhor de nós mesmos enquanto gastávamos nosso tempo preenchendo o vazio de outrem.

Por isso, nosso escritor tão problemático e inteligente enfatiza o aprofundamento no eu. A incessante busca pelo sentido da nossa pele, alma, identidade e existência pode ser uma aventura muito mais quixotesca que um romance a dois.

Pertencemos ao mundo, mas, para realmente entrar dentro desse mundo, é necessário começar por nos perdermos dentro dele. Dizem que o caminho que conduz ao céu passa pelo inferno. Não o importa o caminho escolhido - o essencial é pisarmos firme e sem medo.

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