sábado, 14 de março de 2026

Mayakovsky: os versos mais revolucionários do mundo

Respeitáveis camaradas, esta leitura é grandiosa e indispensável para todos que sentem o desejo da revolução pulsar nas veias. Se a revolução tem um poeta, esse poeta é Vladmir Mayakovsky. Se a palavra tem força, ela vem dos versos de Mayakovsky.

Calcula, reflete, mira bem e avança!

Nascido em 7 de março de 1893 em Baghdati, capital da Geórgia - Império Russo, na época -, Mayakovsky era declaradamente comunista e seus versos não negam a causa. Filho de camponeses, a senhora Aleksandra Aleksieievna e de Vladimir Konstantinovitch, após a morte do pai, a família sobreviveu, correndo contra a corrente da miséria em Moscou.

O poeta russo ansiava viver da arte da escrita, trazer em seus versos amor pela revolução. Findou sua vida às 10h17 do dia 14 de abril de 1930, um estampido no coração da Rússia.

Ao camarada Teodoro Nette* (1926)

*Mensageiro diplomático soviético que morreu em um ataque terrorista durante uma viagem de trem de Moscou a Riga em 05/02/1926. Morreu defendendo postais.

Estremeci.

Não era um fantasma de além-túmulo.

O porto

ardendo 

num calor de metal fundido

abria-se 

para 

receber

o camarada

"Teodoro Nette"

É ele mesmo.

Reconheci-o

pelos óculos-bóias

que está usando.

“Teodoro Nette”.

Salve, Nette!

Prazer em te ver vivo,

nessa vida de chaminés,

cabos

e cordas.

Aproxima-te!

Tens muito calado?

De Batum até aqui

viajaste um pedaço!

Te lembras, Nette, 

quando eras homem

quanto chá tomávamos 

Não tinhas pressa.

A nosso redor já todos roncavam

e tu franzindo as pálpebras

à luz de um toco de vela

a noite toda palavras

sobre Ronka Jacobson?

E era muito engraçado

ver-te suando

para reter um verso.

De manhazinha adormecias

com o dedo no gatilho.

Ninguém se atreveria a entrar!

Quem diria

que um ano depois

ao te encontrar

tu já serias navio!

Uma lua imensa,

à popa debruçada

fendida as águas.

Como se atrás de ti

depois do combate no passadiço,

arrastasses

uma longa esteira sangrenta e luminosa.

O comunismo nos livros 

pode parecer nebuloso.

nos livros é possível

qualquer delírio.

Mas isto imprime vida aos sonhos

e mostra do comunismo

o sangue e a carne.

Vivemos unidos

por um juramento de ferro.

Por ele vamos à cruz

ou enfrentamos as balas.

Para que

russos,

lituanos,

o mundo inteiro

possam viver em comum.

Em nossas veias

corre um sangre rubro

e não água morna.

Marchamos através

de um ladrar de balas

para que ao morrer

nos tornemos

navios,

poemas

ou coisas maiores.

Gente como eu

jamais deveria morrer.

Mas, já que existe um fim - 

quisera -

é meu único desejo -

encontrar a morte

como a encontrou

o camarada Nette.

escritor russo mayakowski
Vladmir Mayakovsky tornou-se um grande apaixonado, senão um herói nacional da poesia e do teatro da URSS, pela sua obsessão vangloriosa pela União Soviética. Muitos estudiosos acreditam que o poeta mergulhou em um profundo desapontamento ao testemunhar os rumos autoritários que o país tomava, sufocando o criar do artista

Uma questão comentada em biografia é que as últimas peças teatrais satíricas, como O Percevejo e O Banho, não agradaram ao público nem às autoridades vermelhas. As peças, sem sucesso, foram recebidas com críticas severas por serem consideradas "difíceis" ou tendenciosas demais. Apesar de tudo, Mayakovsky foi muito bem exaltado por Stalin, O MELHOR E MAIS TALENTOSO POETA DA ÉPOCA.

Desatai o futuro (1925)

O futuro

não virá por si só

se não tomarmos medidas.

Pega-o pelas orelhas, komsomol!

Pega-o pela cauda, pioneiro!

A comuna

não é uma princesa fantástica

com quem

de noite se sonha.

Calcula,

reflete,

mira bem

e avança!

embora sejam miudezas.

O comunismo

não reside apenas

na terra,

no suor das usinas.

Senão também no lar,

à mesa,

nas relações de família,

nos costumes.

Aquele que

no decorrer do dia

anda rangendo palavrões

como um eixo de carroça

ressecado,

aquele que

fica pasmado

quando geme a balalaika,

esses

não atingiram o talhe

do futuro.

Nas trincheiras

manejar metralhadoras,

não é apenas nisso

que consiste a guerra.

O ataque à família,

ao lar,

não é para nós

ameaça menor.

Quem não aguentou

a tarefa doméstica

e dorme

no bem-bom

das rosas de papel,

esse não atingiu o talhe

da poderosa vida

do porvir.

Qual uma peliça

o tempo é também

roído

por vermes cotidianos.

As vestes poeirentas

de nossos dias

cabe a ti, komsomol, sacudi-las!

*Komsomol ou Comsomol era a organização juvenil do Partido Comunista da União Soviética. 

Versos e riscos revolucionários

Motivado pela esperança, o poeta carregava na maioria de seus versos sua luta, como você já teve o prazer de ler acima. Apaixonado pela revolução, Mayakovsky, o futurista que não abandonava os versos tradicionais, as linhas rebuscadas. Sua ruptura é temática, mas não estilística. Falar com belas palavras, uma escolha sensorial sobre um desejo, mais que político, social. MUDAR, MUDAR, MUDAR! Para melhor. E para quem? PARA TODOS.

— A todos,

a todos,

a todos!

Aos que estão fartos do sangue das trincheiras!

A todos os escravos!

A todos os escravizados!

Todo o poder aos sovietes!

A terra para os camponeses!

A paz para os povos!

Pão aos famintos!

Leia também: Anarquismo: incendiário e libertador por Cindy Milstein

Além disso, Mayakovsky demonstrou facilidade nas artes gráficas com a produção de cartazes e poemas-cartazes que se espalharam pela URSS. A arte futurista, que nos lembra a poesia concretista, estruturada em imagens-palavra, que transita entre a poesia e a construção linear de uma imagem-não verbal.

Poema-cartaz feito por Mayakovsky durante a guerra civil (1918-1921)

Versos de amor

Amante da revolução e também da Lilya Brik, Vladimir Mayakovsky escreveu dezenas de cartas a sua amada.  A curta distância de rompimentos já era o bastante para o poeta exprimir sua dor da ausência, fazendo-o gritar desesperadamente por Lilya. Volte, Lilya, volte para esse coração revolucionário.

O amor nunca é démodé, seja na vida, seja na literatura. À beira do rio, Mayakovsky fez me chorar com seus versos que imploravam pela volta de Lilya. Um relacionamento de idas e vindas que sempre findava em cartas de amor e poemas. Um autor consumido pelo sentimento de raiva imperialista e, com igual força, uma paixão incurável por Lilya Brik.

Minha pequena Lila (1916)

O ar está corroído pela fumaça do cigarro.

O quarto

é um capítulo do "Inferno" de Khutchônikh

Lembra

Foi aqui, nesta janela

que pela primeira vez

acariciei, loucamente, teus braços.

Hoje estás sentada lá

como um coração de metal.

Mais um dia

talvez,

e xingando-me,

tu me mandarás embora.

Na ante-sala turva, muito tempo o meu braço

despedaçado por uma tremedeira

não conseguirá encontrar a manga.

Fugirei

jogando meu corpo na rua.

Selvagem

açoitado pelo desespero,

ficarei louco.

Não, isto não deve ser.

Minha querida,

meu amor,

melhor nos separarmos

agora.

De qualquer maneira

para onde quer que fujas

meu amor

pesará sobre ti

como um grande haltere.

Deixe-me, uma última vez,

berrar minha queixa amarga.

Se o boi

está sobrecarregado pelo trabalho

ele vai

e deita na água fria.

Mas afora teu amor,

pra mim,

não existe mar,

e mesmo chorando,

teu amor não me deixará paz.

Se procura o descanso, o elefante fatigado

pode deitar, como um rei, na areia ardendo.

Mas para mim

afora teu amor

não existe sol.

Não sei onde estás. Nem com quem.

Se ele fosse poeta

aquele que torturas assim,

poderia trocar o teu amor

pela glória ou dinheiro.

Mas a mim

nenhum som deixa alegre

afora o som do teu nome bem-amado.

Não vou me jogar pela janela,

não vou tomar veneno

nem apertar o gatilho com a minha cabeça.

Para mim

não existe lâmina nem faca

a não ser o teu olhar.

Amanhã esquecerás

que te coroei,

que o amor incendiou a minha alma em flores

e o vão carnaval dos dias que se foram

vai dispersar as páginas de meu caderno...

As minhas palavras, folhas mortas,

poderão forçar-te

a parar

sem fôlego?

Ao menos deixe-me

cobrir de um último carinho

teu passo que se afasta.

Cartaz de “Acorrentada pelo Filme” (1918), filmes estrelado pelo poeta e sua amada.

Choramos juntos pelo gatilho mirado contra a cabeça mais revolucionária da literatura russa. Mayakovsky. De amor e de revolução, o artista falece e deixa na história sua marca.

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