Neste relato fictício do escritor tcheco Franz Kafka, a memória se funde à arquitetura para narrar a construção de uma das sete maravilhas do mundo, a Muralha da China. Dois mil anos de construção, mais de 20 mil quilômetros e mais de um milhão de trabalhadores envolvidos, tanto na construção de pedras sobre pedras como em desenho projetado ainda nos anos 221 a.C.
Como um narrador que viveu de perto, ele descreve os esforços monumentais para edificar a barreira que protegeria o império. O autor resgata a visão de uma criança e suas lembranças das projeções que antecederam a construção da Muralha da China.
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| Morning sunlight on the Great Wall |
Essa volta ao passado também é especulativa ao questionar as reais intenções imperiais, ao mesmo tempo que a muralha se torna uma defesa contra bárbaros, também um instrumento de controle psicológico moldado desde a infância.
Cinquenta anos antes do início da construção, foi declarada, em toda a China a ser murada, a arte da construção, em especial da alvenaria, como a ciência mais importante, e todo o resto reconhecido apenas na medida em que se relacionava a ela. Ainda lembro bem de como nós, crianças pequenas, ainda pouco seguras em nossas pernas, no jardinzinho de nosso professor, éramos obrigadas a construir uma espécie de muro com seixos, de como o professor levantava o casaco, corria de encontro ao muro, naturalmente derrubava tudo, e nos repreendia por causa da fragilidade da nossa construção, e de como chorávamos correndo para junto de nossos pais. (p.17)
O observador descreve, em paralelo, a estrutura piramidal da sociedade, onde cada camada busca de forma incessante uma ascensão.
Acredito muito mais que o alto comando existe desde sempre, tal como a decisão de construir a muralha. Inocentes povos do norte, que acreditaram terem sido eles sua causa; inocente e ingênuo imperador que imaginou ter sido ele a decretá-la. Nós, da construção da muralha, sabemos que foi diferente e nos calamos. (p. 47)
A homens intelectualmente superiores são atribuídas tarefas menores. São indivíduos que, em circunstâncias comuns, jamais partilhariam a realidade daqueles que, ansiosos por uma troca compensatória, permanecem distantes de seus lares por anos, separados por um longo fio quilométrico - a muralha, a imponente Muralha da China!
Kafka, Franz. Na construção da Muralha da China. Editora Paraula. 1995.
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