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domingo, 21 de junho de 2026

A Queda (Albert Camus): o solitário e perverso exercício de falar de nós mesmos

Peeter Mudist (1980)

Quantas vezes nos vimos frente à frente com grandes contadores de históriasDaquelas que ouvimos em um bar, sob o efeito de álcool e os sintomas da socialização descontraídaNo início, passamos a duvidar dos causos contados por estes grandes pescadores da contemporaneidade, os humanos demasiadamente faladores.

E então, aquela história que ouvimos, sob a perspectiva de seu próprio locutor, segue sendo uma verdade incontestável, pois não há provas de mentira. Eis que ocorre a nossa percepção de pessoas e fatos a partir de uma verdade desconfiadaSó nos resta acreditar sem ousar dizer: “cale-se, chega de mentir!”.

É num cenário como este que surge Jean-Baptiste Clamence, um advogado já cansado da labuta justiceira e dono de um ego altamente inflamadoA narrativa A Queda (1956), escrita por Albert Camus, é o palco perfeito para este locutor atirar inúmeros episódios de sua vida ao leitor.