| Peeter Mudist (1980) |
Quantas vezes nos vimos frente à frente com grandes contadores de histórias? Daquelas que ouvimos em um bar, sob o efeito de álcool e os sintomas da socialização descontraída. No início, passamos a duvidar dos causos contados por estes grandes pescadores da contemporaneidade, os humanos demasiadamente faladores.
E então, aquela história que ouvimos, sob a perspectiva de seu próprio locutor, segue sendo uma verdade incontestável, pois não há provas de mentira. Eis que ocorre a nossa percepção de pessoas e fatos a partir de uma verdade desconfiada. Só nos resta acreditar sem ousar dizer: “cale-se, chega de mentir!”.
É num cenário como este que surge Jean-Baptiste Clamence, um advogado já cansado da labuta justiceira e dono de um ego altamente inflamado. A narrativa A Queda (1956), escrita por Albert Camus, é o palco perfeito para este locutor atirar inúmeros episódios de sua vida ao leitor.
O exercício de falar sobre nós mesmos ou uma Epopeia do Ego
Clamence viveu no topo de si mesmo. Nos inundando de seus grandes feitos e com a imagem de um homem que flutuava acima da mediocridade do mundo
Sem dúvida, às vezes, eu fingia levar a vida a sério. Mas, bem depressa, o que havia de frívolo na própria serenidade evidenciava-se a mim e eu continuava apenas a desempenhar meu papel da melhor forma que podia. Representava o eficiente, o inteligente, o virtuoso, o patriota, o indignado, o indulgente, o solidário, o edificante...
A ascensão de Clamence era alimentada por aplausos vindos dele mesmo. Mas seria, assim como nós, diante do entusiasmo de falar sobre si, uma fraude moral? Quem sou eu para contestar a vida que sequer vivi? É por isso, talvez, que o interlocutor deste breve romance se mantém, quase sempre, plenamente calado.
Chegamos ao dique. Temos de segui-lo, para ficarmos o mais longe possível destas casas por demais graciosas. Sentemos-nos, por favor. Que me diz? Aqui temos, não acha, a mais bela das paisagens negativas. (...) Não será o universo apagado, o nada sensível aos nossos olhos? Nenhum ser humano, sobretudo, nenhum ser humano. O senhor e eu apenas, diante do planeta enfim deserto! O céu vive? Tem razão, caro amigo.
Enfim, A Queda ou a revelação do fracasso que nos habita
À la Camus, a narrativa jamais perde o fio literário que conduz todo o repertório do escritor, a existência movida pelo fracasso e a tentativa vazia de ser algo que mereça seu devido aplauso.
Devo reconhecê-lo humildemente, meu caro compatriota, fui sempre um poço de vaidade. Eu, eu, eu, eis o refrão da minha preciosa vida [...]. Sempre me achei mais inteligente que todo mundo, como já lhe disse, mas também mais sensível e mais hábil, atirador de elite, incomparável ao volante e melhor amante. […] Só reconhecia em mim superioridades, o que explicava minha benevolência e minha serenidade.
O solitário e perverso exercício de falar de nós mesmos sempre revela uma confissão desesperada. A verdadeira Queda de Clamence não se dá frente aos tribunais parisienses, mas nas águas turvas do Rio Sena.
A partir da noite em que presenciou, sem tomar nenhuma providência, uma tentativa de suicídio no rio, o protagonista passa a ser arrastado pelo declínio moral. Sua covardia, outrora mascarada por sua nobreza egocêntrica, mescla-se ao pessimismo. Se antes fomos obrigados a admirá-lo na mesa do bar Mexico-City, agora, talvez, sintamos apenas uma pena empática.
Quer que nos calemos para saborear esta hora um tanto sinistra? Não, eu o interesso? O senhor é muito amável.
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