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| Foto: Danilo Woznica |
Em 1927 Alejo Carpentier (1904-1980) rascunhava na prisão um livro que buscava manifestar a identidade afrocubana do país caribenho. O título da obra era ¡Ecue-Yamba-O!, tradução de Deus seja louvado, na língua Locumí, que tem suas origens no grupo étnico e linguístico Yorubá.
¡Ecue-Yamba-O! foi publicado um pouco mais tarde no exílio do escritor na Espanha, em 1933, cinco anos após Carpentier livrar-se do território cubano regido por oligarcas, em 1928. Este foi o primeiro romance do escritor, que nos traz uma obra que mescla raízes africanas ao cotidiano moldado pelo colonialismo europeu. A obra é um recorte mínimo de situações e personagens cobertos do adocicado suor dos canaviais e o misticismo que sustenta a espiritualidade Santería.
Acrescento também, ¡Ecue-Yamba-O! sendo um descritivo de uma Cuba latinoafricana que resiste às imposições imperiais - hasta siempre, por sinal.
Raízes afrocubanas: um continente em uma ilha
Naquela noite, cavalgando um caixão cheio de lenha, o velho Luí evocava coisas de outros tempos... Musenga, musenga!
Musenga é o grito dos escravos cortadores de cana na época colonial.
Alinhada a uma vanguarda nacionalista e ao Grupo Minorista, com ¡Ecue-Yamba-O! Alejo Carpentier apresenta, desde a época de sua publicação em Madrid, a essência da ilha de Cuba. Um país construído em cima de canaviais e um extenso cemitério de civilizações pré-colombianas, como os guanahatabeys, siboneys e taínos. Estas últimas foram etnias praticamente exterminadas após a trágica invasão europeia.
É neste conjunto de situações repetidas inúmeras vezes em toda a América que chegam africanos, bordando esta ilha com linhas de resistência, crenças, ritmos e demais idiossincrasias geracionais e intercontinentais.
Assim como os brancos povoaram a atmosfera de mensagens cifradas, tempos de sinfonia e cursos de inglês, os homens de cor capazes de fazer perdurar a grande tradição de uma ciência legada durante séculos, de pais para filhos, de reis para príncipes, de iniciadores para iniciados sabem que o ar é um tecido de fibras que transmite as forças invocadas em cerimônias cujo papel se reduz, no fundo, a condensar um mistério superior para dirigi-lo contra alguma coisa ou a favor de alguma coisa... Caso se aceite como verdade indiscutível que um objeto possa estar dotado de vida, esse objeto viverá.
Renée Segundo / Aiguá (UY)
Em um dos inúmeros navios que atracaram nas costas da nossa América, desembarcaram os descendentes nigerianos do protagonista deste romance, Menegildo Cue. Mas além de escravizados provenientes do grande continente, mais tarde, chegariam a Cuba haitianos e jamaicanos, vizinhos dali e convocados pela indústria açucareira para fortalecer a produção.
Menegildo é um homem alheio a questões de ordem política e também social. Nas veias, além de sangue, correm os ritmos e batidas, maracas e entonações nos quintais festivos e na Santería cubana. E, tudo isso sob a proteção extrema de seus orixás.
Era verdade que Menegildo não sabia ler, ignorando até mesmo a arte de assinar com uma cruz. Mas, em troca, já era um verdadeiro doutor em gestos e ritmos. O compasso musical vibrava em seu sangue: quando batia numa caixa carcomida ou num tronco esburacado pelos cupins, ele reinventava as músicas dos homens. De sua garganta brotavam melodias rudimentares e rigidamente escondidas, enquanto o movimento balanceado de seus ombros e ventre enriquecia a composição com um eloquente contraponto mímico.
Junto a este rapaz, outras personagens mapeiam as características que reafirmam este sincretismo cubano ante às crenças e culturas europeias. O cenário descrito nas próximas linhas apresenta o altar da casa de Cristalina Valdés, uma senhora médium, que tem a fama de prever futuros, comunicar-se com entes queridos e demais tarefas de ordem sobrenatural.
Cristalina Valdés, mãe de Cândida, morava nos arredores da cidade, nos confins de um bairro que já cheirava a vacas e mato queimado. Havia dois pés de mamoncillo em seu quintal, e um poço profundíssimo, um busto de Lênin e um roseiral. Em sua casa de traços coloniais, com pisos de cerâmica vermelha, reinava uma permanente penumbra. Em mísulas e cornijas de armários — pontos elevados daquele interior — se encontravam tinas, taças e copos cheios d'água. Na sala, um retrato de Allan Kardec ficava ao lado de um triângulo maçônico, um Cristo italiano, o clássico São Lázaro cubano "printed in Switzerland", uma efígie de Maceo e uma máscara de Vítor Hugo. Segundo Cristalina Valdés, todos os "homens grandes" eram transmissores. Transmissores de uma força cósmica, indefinível, tão presente no sol como na fecundação de um óvulo ou numa catástrofe ferroviária. Por isso, qualquer retrato, busto, modelo, caricatura ou fotografia de homem famoso e morto que lhe caísse debaixo dos olhos ia enriquecer o arquivo iconográfico do seu "Centro Espírita". Sob o signo de Allan Kardec, todas as místicas encontravam uma justificativa. Catolicismo, práticas de revival, bruxaria e até distantes alusões a Maomé, o "santo" que alguns poucos escravos haviam venerado nos barracões crioulos...
Foto: Danilo Woznica
Li a ¡Ecue-Yamba-O! do ano de 1988 da Editora Brasiliense.
Escrevi ao som das rádios Taino e CMBQ Radio Enciclopedia.
Se chegou até aqui, você gostará de ler Junot Díaz e fantástica família dominicana

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