Ciganos (1984), do escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012), apresenta de uma maneira muito poética a vida de grupos ciganos em contraponto à vida de um menino de uma pequena cidade. Formas e todas as cores de vida, histórias que passam pela janela, deixando, na estrada, apenas rastros dos cavalos.
Os ciganos aqui no Brasil, também chamados de romani, somam aproximadamente 1 milhão de pessoas. Contrariando o imaginário popular, a literatura e o cinema, muitos ciganos têm residência fixa e nem todos estão cobertos de acessórios e tecidos, colorindo as ruas com adereços e estampas ao estilo Kalderash. Isto porque, é importante dizer, cigano não é, de grosso modo, um estilo de vida, e sim uma etnia. E se tratando de etnia, os ciganos não se diferenciam apenas pelo fator cultural e linguístico, mas também econômico e social, surgindo, entre eles, desde uma pequena elite a grupos marginalizados, de acordo com o antropólogo Frans Moonen (2011).
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| Os ciganos vão para o céu (1976) Emil Loteanu |
A beleza do povo cigano temido
Nascia assim, de repente como a morte, uma vila colorida que se aninhava naquele povoado antigo. A presença dos ciganos mudava o ritmo de ser da cidade. Portas eram cerradas, roupas não dormiam em varal, nem cavalos soltos nos pastos. Essa maneira milenar que os ciganos tinham de estar no mundo – nascendo em cada chegada e morrendo em cada partida – incomodava os habitantes da cidade, sempre a perseguirem o eterno.
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| Ciganos espanhóis por Francis William Topham (1854) |
Foi de seu pai que ele herdou essa mania calada, esse jeito escondido e mais a saudade de coisas que ele não conhecia, mas imaginava. Sua vontade de partir veio, porém, do desamor. Tudo em casa já andava ocupado: as cadeiras, as camas, os pratos, os copos. Mesmo o carinho distribuído. Por seguidas vezes a sua solidão se misturava aos ruídos do chicote do pai, nas costas. E desse surpreendente dueto também ele não sabia a dor maior, se a da carne ou a do coração.
Moldar e polir o cobre, amar o ouro e o sol, era a herança que o pai cigano passava para o filho, enquanto as meninas ouviam das mães os primeiros segredos das mãos. Mas na hora do crepúsculo, neste momento em que o mundo fica grande demais, esses meninos ciganos, sem receio de febre ou sereno, brincavam em volta das tendas. Sei que não falavam de prisões, roubos, medos. Deitados, inteiramente aninhados no capim fresco, escolhiam as suas estrelas-guias. Não teciam dúvidas acerca da origem nem intrigas sobre o futuro. Eles eram ali, presentes, nômades, portanto, proprietários do mundo por não estabelecerem limites.


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