segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Catequese Poética: lugar de poesia é na boate ou na camiseta

 Um grupo de poetas busca retirar a arte da palavra dos espaços intelectuais, onde a elite reina mais do que a própria poesia. Poderíamos muito bem estar falando da Semana de Arte Moderna de 1922, mas, felizmente, a revolta artística não morrera por ali, décadas mais tarde, novos ventos marginais soprariam pela nossa terra brasilis.

Se na década de 20, um grupo de artistas e escritores propunha uma ruptura definitiva com as artes clássicas e a literatura moldada pela visão eurocentrista, os contemporâneos da Catequese Poética tinham como defesa a retirada da poesia dos espaços e objetos de ordem intelectual - o livro.

Repudiando as pudicas e borolentas fórmulas do comportamento livresco e do poeta-livro (impresso expresso e oprimido) - quer dizer, limitadas às reveladoras cifras do analfabetismo e do desinterêsse constatado, a CATEQUESE POÉTICA propõe e realiza, ao contrário dos ditos participantes (teóricos de cabina e cabos sem esperança), o desentranhamento do poeta e seu ressurgimento no quadro social. Ou seja: arrancamos o poeta do livro-cabeceira-estante-mofada e o colocamos frente a frente a um público, seja na praça da Sé, no viaduto do Chá, no colégio Y, na faculdade Z ou no teatro AB. RUBENS JARDIM

Capa do livro com foto dos integrantes do movimento literário Catequese Poética

Poesia em espaços informais, poesia em espaços infernais

Um livro de poesia na gaveta não adianta nada... Sérgio Sampaio vai nos dizer que o lugar de poesia é na calçada. Uma década e dois anos antes do álbum Tem que Acontecer ser lançado, o Catequese Poética ganhava sua forma irregular. O ano era 1964 e Lindolf Bell (1938-1998), escritor catarinense e idealizador do movimento, recitava alguns versos pela na boate Ela, Cravo e Canela em São Paulo.

Dos corredores da universidade e largada à rua, a catequese acontecia, ministrada por um grupo de poetas (homens, sim, em sua maioria) e poetisas, como Iracy Gentili (1930-2002), Reni Cardoso (1945-2008) e Nilza Barude (1946-). 

nossa obra não é estática nem é estéril, e mais: nós não temos tempo para dizer não tenho tempo, e mais: nós não acreditamos no livro porque temos esperança no livro, e mais: confiram vossos dicionários com os nossos, e mais: confiram vossos anuários estatísticos com os nossos, e mais nós entendemos a esperança da seguinte forma: acreditar numa coisa e trabalhar por ela, e mais: nós não acreditamos na palavra esperança que anda solta em tantas letras de tangos, boleros e sambas-canção, que exerce a função de destruir tôdas as possibilidades oferecidas pela palavra esperança que exerce a função de destruir tôdas as possibilidades oferecidas pela palavra esperança e à própria esperança.LUIZ CARLOS MATTOS

Existe, neste grupo, a necessidade de reinventar os instrumentos de comunicação e romper qualquer barreira limitante à expressão. O grupo não era contra o mercado editorial, mas como o livro como mercadoria e seu caráter estático. Era por isso que poesia deveria servir à rua, ultrapassar os limites editoriais e invadir praças, bares, estádios e até camisetas. Esta última foi mais uma proposta de Lindolf Bell de libertar o poema de seu suporte principal e fazê-lo habitar o corpo, o corpoema.

O lugar do poema é todos os meios de comunicação. O lugar do poeta é todos lugares. O poema não é um fruto petrificado, impossível de trincar. E compete ao poeta, mais do que nunca, mostrar suas possibilidades de consumo.

Não há lugar, por conseguinte, apenas para laboratórios de pesquisas e torres-de-marfim. É preciso expor o fruto poético com toda a violência possível na grande feira da repressão lírica. Não se pode confinar nem o poema nem o poeta. A geografia de ação de ambos tende à imagem de um leque circular que se abrisse sem parar. LINDOLF BELL

A obra não estática é o que move a Catequese Poética. Jamais foi sobre estilismo, sobre a estética construída através de palavras, mas sim sobre o elitismo da poesia. Abaixo, desfrute de alguns poemas selecionados. 

Lindolf Bell na Ela, Cravo e Canela
POEMA 
Trago-vos um pênis, erecto
pela urgência da vida.
Habito-vos em prostíbulos psicodélicos
escancarando minhas portas, abertas
desde o ventre para a tormenta.
Está próxima a hora em que,
um diante do outro,
sem psicotrópicos, nus,
conseguiremos dizer,
banhados de simplicidade:
Tenho a impressão 
de que estou-te amando.

 

O CAMINHO - RENI CARDOSO
Não é medo de chegar sozinha:
é medo de não chegar.
Não é angústia de saber longa a estrada:
é de não saber escolher entre todas
a verdadeira.
Oh! Meu segredo inviolável!
O longo mapa a percorrer!
Quantas vezes penso ter chegado à paz 
e é apenas uma encruzilhada. 

 

POEMA DA GRANDE CIDADE 
Tarde é o vento
e eu me ponho de bruços
e colho a melancolia da tarde
e apanho os frutos derrubados.

Nada sei do que todos sabem.
Nada sei dos gases e ruídos.
E mesmo assim sou os que se cruzam
entrecruzam
descruzam 
e cruzam novamente
e não deixam flor
e não deixam dor
e vão

e vêm
na grande nave da urgência
e sou o visor
ôlho mágico
tela panorâmica
e nave da completa incapacidade de entender
o passar o passar o passar
dos que passam como se não passassem,
imensas tochas de pressa 
que ardem sem saber que ardem na tarde.

 

O INVENTÁRIO DE BRASÍLIA  - LUIZ CARLOS MATTOS
Bassa basílica
digo lago ao longo
Regina Advocata et Mater
na catedral sem vidros

ilha em-terra
enterrada nas marés de suas savanas
a oração rompe na tarde da ilha nova
é tarde

o brilho se transfigura face ao tempo
face a face em minha face refletida
no brilho vidro da janela face norte do Hotel Nacional em Brasília

Brasil
minha locação: W 3 SQ 303 (evitar saída sul)
a esplanada dos ministérios
R 13
sem mistérios ou equações

êste
o caminho mais curto 
(passando pela casa de Maria)


UM SONHO SUL-AMERICANO - LINDOLF BELL
Utópico sonho
ou u'trópica sina?
Hemisfério sul
( ou hemisferno?)
sem a estrela do norte,
tem a mesma morte,
sem a mesma sorte.

Amazonas?

Amo as zonas verdes,
os rosais monazíticos
os jardins de ferrugem,
os doces óleos dos petróleos.

Andes? Antes?
E depois? E amanhã?
E depois de amanhã?
E hoje?

Utópico sonho
ou u'trópica sina.
Ou outro pico ( mais alto)
que a esperança levanta
dentro do peito?

Um fim reflexivo ou um Triste Fim

No século atual, a literatura de autoajuda lidera os mais vendidos (seriam os mais lidos também? Eis a grandíssima questão!), disseminando-se feito genérico (a capa do livro). O livro-instrumento carrega títulos chamativos e mensagens eficazes, próprios para o agora desesperador do homo moderníssimus.

Crise estética e cultural tem cura?

Para conhecer a ideia do Corpoema, recomendo a leitura curiosa da monografia Rafael Tomelin, com o título de "Verso veste pele: sobre a materialidade dos 'CORPOEMAS' de Lindolf Bell", disponível aqui

Outros poetas do Catequese Poética:

- Poetisas do Movimento Catequese Poética

Iosito Aguiar 

Érico Max Muller 

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