Um grupo de poetas busca retirar a arte da palavra dos espaços intelectuais, onde a elite reina mais do que a própria poesia. Poderíamos muito bem estar falando da Semana de Arte Moderna de 1922, mas, felizmente, a revolta artística não morrera por ali, décadas mais tarde, novos ventos marginais soprariam pela nossa terra brasilis.
Se na década de 20, um grupo de artistas e escritores propunha uma ruptura definitiva com as artes clássicas e a literatura moldada pela visão eurocentrista, os contemporâneos da Catequese Poética tinham como defesa a retirada da poesia dos espaços e objetos de ordem intelectual - o livro.
Repudiando as pudicas e borolentas fórmulas do comportamento livresco e do poeta-livro (impresso expresso e oprimido) - quer dizer, limitadas às reveladoras cifras do analfabetismo e do desinterêsse constatado, a CATEQUESE POÉTICA propõe e realiza, ao contrário dos ditos participantes (teóricos de cabina e cabos sem esperança), o desentranhamento do poeta e seu ressurgimento no quadro social. Ou seja: arrancamos o poeta do livro-cabeceira-estante-mofada e o colocamos frente a frente a um público, seja na praça da Sé, no viaduto do Chá, no colégio Y, na faculdade Z ou no teatro AB. RUBENS JARDIM
Poesia em espaços informais, poesia em espaços infernais
Um livro de poesia na gaveta não adianta nada... Sérgio Sampaio vai nos dizer que o lugar de poesia é na calçada. Uma década e dois anos antes do álbum Tem que Acontecer ser lançado, o Catequese Poética ganhava sua forma irregular. O ano era 1964 e Lindolf Bell (1938-1998), escritor catarinense e idealizador do movimento, recitava alguns versos pela na boate Ela, Cravo e Canela em São Paulo.
Dos corredores da universidade e largada à rua, a catequese acontecia, ministrada por um grupo de poetas (homens, sim, em sua maioria) e poetisas, como Iracy Gentili (1930-2002), Reni Cardoso (1945-2008) e Nilza Barude (1946-).
nossa obra não é estática nem é estéril, e mais: nós não temos tempo para dizer não tenho tempo, e mais: nós não acreditamos no livro porque temos esperança no livro, e mais: confiram vossos dicionários com os nossos, e mais: confiram vossos anuários estatísticos com os nossos, e mais nós entendemos a esperança da seguinte forma: acreditar numa coisa e trabalhar por ela, e mais: nós não acreditamos na palavra esperança que anda solta em tantas letras de tangos, boleros e sambas-canção, que exerce a função de destruir tôdas as possibilidades oferecidas pela palavra esperança que exerce a função de destruir tôdas as possibilidades oferecidas pela palavra esperança e à própria esperança.LUIZ CARLOS MATTOS
Existe, neste grupo, a necessidade de reinventar os instrumentos de comunicação e romper qualquer barreira limitante à expressão. O grupo não era contra o mercado editorial, mas como o livro como mercadoria e seu caráter estático. Era por isso que poesia deveria servir à rua, ultrapassar os limites editoriais e invadir praças, bares, estádios e até camisetas. Esta última foi mais uma proposta de Lindolf Bell de libertar o poema de seu suporte principal e fazê-lo habitar o corpo, o corpoema.
O lugar do poema é todos os meios de comunicação. O lugar do poeta é todos lugares. O poema não é um fruto petrificado, impossível de trincar. E compete ao poeta, mais do que nunca, mostrar suas possibilidades de consumo.
Não há lugar, por conseguinte, apenas para laboratórios de pesquisas e torres-de-marfim. É preciso expor o fruto poético com toda a violência possível na grande feira da repressão lírica. Não se pode confinar nem o poema nem o poeta. A geografia de ação de ambos tende à imagem de um leque circular que se abrisse sem parar. LINDOLF BELL
A obra não estática é o que move a Catequese Poética. Jamais foi sobre estilismo, sobre a estética construída através de palavras, mas sim sobre o elitismo da poesia. Abaixo, desfrute de alguns poemas selecionados.
Trago-vos um pênis, erectopela urgência da vida.Habito-vos em prostíbulos psicodélicosescancarando minhas portas, abertasdesde o ventre para a tormenta.Está próxima a hora em que,um diante do outro,sem psicotrópicos, nus,conseguiremos dizer,banhados de simplicidade:Tenho a impressão
de que estou-te amando.
O CAMINHO - RENI CARDOSONão é medo de chegar sozinha:é medo de não chegar.Não é angústia de saber longa a estrada:é de não saber escolher entre todasa verdadeira.Oh! Meu segredo inviolável!O longo mapa a percorrer!Quantas vezes penso ter chegado à paze é apenas uma encruzilhada.
POEMA DA GRANDE CIDADE
Tarde é o ventoe eu me ponho de bruçose colho a melancolia da tardee apanho os frutos derrubados.Nada sei do que todos sabem.Nada sei dos gases e ruídos.E mesmo assim sou os que se cruzamentrecruzamdescruzame cruzam novamentee não deixam flore não deixam dore vãoe vêmna grande nave da urgênciae sou o visorôlho mágicotela panorâmicae nave da completa incapacidade de entendero passar o passar o passardos que passam como se não passassem,imensas tochas de pressa
que ardem sem saber que ardem na tarde.
O INVENTÁRIO DE BRASÍLIA - LUIZ CARLOS MATTOSBassa basílicadigo lago ao longoRegina Advocata et Materna catedral sem vidrosilha em-terraenterrada nas marés de suas savanasa oração rompe na tarde da ilha novaé tardeo brilho se transfigura face ao tempoface a face em minha face refletidano brilho vidro da janela face norte do Hotel Nacional em BrasíliaBrasilminha locação: W 3 SQ 303 (evitar saída sul)a esplanada dos ministériosR 13sem mistérios ou equaçõesêsteo caminho mais curto
(passando pela casa de Maria)
UM SONHO SUL-AMERICANO - LINDOLF BELL
Utópico sonho
ou u'trópica sina?
Hemisfério sul
( ou hemisferno?)
sem a estrela do norte,
tem a mesma morte,
sem a mesma sorte.
Amazonas?
Amo as zonas verdes,
os rosais monazíticos
os jardins de ferrugem,
os doces óleos dos petróleos.
Andes? Antes?
E depois? E amanhã?
E depois de amanhã?
E hoje?
Utópico sonho
ou u'trópica sina.
Ou outro pico ( mais alto)
que a esperança levanta
dentro do peito?
Um fim reflexivo ou um Triste Fim
No século atual, a literatura de autoajuda lidera os mais vendidos (seriam os mais lidos também? Eis a grandíssima questão!), disseminando-se feito genérico (a capa do livro). O livro-instrumento carrega títulos chamativos e mensagens eficazes, próprios para o agora desesperador do homo moderníssimus.
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| Crise estética e cultural tem cura? |
Para conhecer a ideia do Corpoema, recomendo a leitura curiosa da monografia Rafael Tomelin, com o título de "Verso veste pele: sobre a materialidade dos 'CORPOEMAS' de Lindolf Bell", disponível aqui.
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