sábado, 5 de setembro de 2026

Abraham Moles e o Kitsch: notas sobre gadgets, supermercados e felicidade

O Kitsch é a mercadoria ordinária, uma secreção artística derivada da venda de produtos de uma sociedade em grandes lojas que assim se transformam, a exemplo das estações de trem, em verdadeiros templos. (p. 10)

Quando o clássico se torna inalcançável, alternativas emergem para permitir que uma parcela menos abastada da sociedade tenha acesso a conteúdos similares — como as queridas réplicas. É nessa mescla de originalidade e mediocridade que o Kitsch surge, não propriamente como um movimento, mas como um apelo estético.

O filósofo francês da estética Kitsch Abraham Moles (1920-1992) nos apresenta a etimologia, o cerne desse estilo glorioso. Kitsch é derivado de kitschen, palavra alemã utilizada na região sul do país para designar a produção de móveis novos a partir de móveis velhos. Outra mescla etimológica, com um tom mais pejorativo, designa trapacear, vender algo diferente do que havia sido acordado. A partir desta definição, é entendível a ideia de arte em sua forma mais vulgar possível. Uma secreção.

O nascimento do Kitsch (ou: as primeiras secreções)

Casa com decoração divertida em Aberdeen, Escócia.
Fachada muito feliz e Kitsch no bairro Footdee em Aberdeen - Escócia

Uma reação violenta contra a burguesia deu origem à arte contemporânea. O Kitsch não foge dessa lógica. Por sua vez, Moles defenderá ele como "a autêntica marmita da anti-arte". 

O fazer artístico escorre na veia sem qualquer preocupação com a extravagância ou com o excesso do excesso de excesso do bom gosto, traduzido em mau gosto. Na verdade, é justamente com essa estética duvidosa que ele preenche o vazio deixado pela arte antidemocrática, dando voz à felicidade que é a expressão sem limites. Liberdade, que se diz.

Jardim com estatuetas
Aiguá - Uruguay
Essa arte de elite, antidemocrática, inalcançável, sempre serviu aos reis e à burguesia, enquanto o resto da sociedade apenas assistia pela vitrine, como quem devora com os olhos um doce inacessível em uma confeitaria à la francesa.

A origem do Kitsch remonta à própria História da Arte, buscando brechas nos estilos clássicos para construir suas réplicas expressivas. Ironicamente, o Kitsch foi o grande propulsor de movimentos como o Expressionismo, o Impressionismo e a própria, autêntica e minimalista Bauhaus.

A vulgarização extrema do Kitsch, com seu auge no final do século XIX, resultou no apelo por novos movimentos artísticos, que passaram a se concentrar na neutralidade e no minimalismo, prezando pela simplicidade. O famoso "menos é mais" chega para desbancar o excesso.

Enquanto o "Rei do Kitsch" constrói castelos de ilusão, indústrias de procedência estranha criam objetos multifuncionais em massa. 

Gnomos, patos colorido e animais extravagantes, vasos malucos e casas recheadas de ornamentos. Seria tudo isso delírio ou apenas felicidade? A felicidade de ser Kitsch.

O cidadão, humano demasiado humano, desiste de um esforço que está além de seu alcance, entregando-se de corpo inteiro aos prazeres do cotidiano, da liberalidade em face de suas tendências e do jogo com os objetos. A felicidade existe para todos os dias, mesmo que a arte ilumine a existência com ligeiros raios de glória. (p. 170)

Kitsch em móveis ornamentados
O Kitsch: a arte da felicidade - Abraham Moles

Gadgets e a constituição do Kitsch moderno

O Kitsch, como produto de uma modernidade desesperada pela necessidade de integrar-se, criou os famosos gadgets. São objetos multifuncionais que nos servirão raras vezes, mas que, à primeira vista, sempre nos parecem incrivelmente inovadores e exclusivos. Moles também os definirá como uma forma de reduzir o tempo de gasto em uma micro-função da vida, evitando que percamos tempo a ler manuais ou aprender a fazer. 

gadget é artificioso, fundamento de sua virtude e de seu encanto, e nos proporciona o prazer de conhecer um reflexo do mundo técnico. Ele seduz por seu artifício e pelo exercício lúdico da consecução de uma "boa forma" de ações, de praxemas combinados segundo uma tática. Por este motivo, propicia um rico investimento psicológico. Em conseqüência, ele aparece como uma doença da funcionalidade. (p. 207)

Atualmente, vivemos na verdadeira sociedade do gadget. A equipagem exaustiva de todos os nossos dias, onde somos convencidos de que necessitamos de engenhosidades absolutamente inúteis. Trata-se de um repertório interminável de tralhas que circulam pelas vitrines online e se multiplicam pelas redes sociais, fazendo a roda do capital girar junto a luminosos leds violetas e verdes

Ser civilizado, hoje, pode significar simplesmente ter muitas necessidades fabricadas em um mundo profundamente infectado pela globalização.

Leia sobre A História das Coisas e a Obsolescência Programada

KKK: consumir Kitsch, pensar Kitsch, ser Kitsch

O Kitsch se multiplica para muito além da estética. A própria criação e dinâmica das lojas de departamento e supermercados, por exemplo, é uma forma Kitsch de existir.

1) Uma coleção de objetos, todos com o mesmo preço e, em conseqüência, eliminando a própria noção de preço: (tudo por 1 dólar) objetos normalizados, quantificados, universais e selecionados em função de uma nova clientela, a classe: pequeno-burguês, operário, empregado, que passam a ter acesso ao bem-estar.

2) Cadeias de lojas em substituição à sucursal (por exemplo, a sucursal na província das Galerias Lafayettes, muito em voga nas obras literárias de 1910) pela idéia de que todas as lojas com o mesmo nome são, desde logo, idênticas quanto à escolha e aos artigos, idéia reforçada por uma apresentação comum.

3) A empresa expande-se sem obedecer a uma lenta secreção histórica desde o "Bonheur des Dames" até ao "Printemps" ou à "Samaritaine", baseando-se muito mais em um esforço contínuo calcado no varejo, operando através de um distanciamento social em face do mercado, com um capital inicial muito importante, orientada por um projeto fundado em um estudo de mercado. (p. 163)

Quando a necessidade por aquilo que nem sabemos o que é consegue se sobressair à sobrevivência básica, já conseguimos enxergar a fagulha do conceito. É o equivalente moderno de um Luís da Baviera construindo seus castelos para fugir da realidade.

Esse conceito, feito uma megalomania escrachada, extrapola as artes visuais. Ainda que seja mais frequente associá-lo ao visual, às artes plásticas, o Kitsch pode ser traduzido como uma forma de pensamento, sem qualquer prescrição (estética) rígida. Em todas as artes enumeradas, da primeira à sétima, ele perpassa com o seu esplendor barato.

O que ele deixa para trás é a lembrança vulgar de um estilo que só se fez possível a partir da imensa falta de humildade da arte tal como perdurou e ainda perdura no imaginário social.

MOLES, Abraham. O Kitsch: a arte da felicidade. Editora Perspectiva, 2001.

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