terça-feira, 8 de setembro de 2026

Entre dores e Dolores: Ithálo Furtado

Viver é assassinar, a todo instante, os males da hora já gasta.

Dolores (e os remédios pra dormir) é um romance profundamente introspectivo, uma literatura que pesa à mente pela sua delicadeza problematizadora. Escrito pelo piauense Ithalo Furtado, este seu segundo livro, publicado em 2016, nos apresenta uma série de cartas registrados pela narradora-personagem Vâmila Santisteban.

Diante de sua angústia existencial, Vâmila escreve cartas a destinatários que jamais a responderão, e sequer a lerão. Escreve para David Bowie, a artista plástica Frida Kahlo, o poeta T.S. Eliot... Escreve para nós, suas leitoras, seus leitores.

Brasília, 2025

O que me tornei? O que fiz com a criança que sonhava absurdos tão bonitos enquanto todo mundo já dava sinais de fuga? Alguns pegaram o trem e nunca mais voltaram. Outros fincaram suas raízes na estação. Mas, a grande maioria não hesitou em decidir e, com o coração nas mãos, se atirou nos trilhos.

Vâmila é uma jovem em depressão. Rodeada de questionamentos, a narradora-personagem atravessa as páginas do livro como quem atravessa uma longa avenida de amargura. Sentimos, preocupante seria não sentir, juntas com ela a dor da existência, a dor da cobrança de existir perante à sociedade sempre munida de espadas-olhares.

Vocês. Todos vocês. Lá fora. Com seus dons de tristear toda a gente. Ah, se soubessem o que pulsa, o que vive o que arde o que fere o que impera o que expulsa o que sangra e o que incendeia em mim. Se soubessem do soco do tiro do não na hora do cúmulo e de todos os espaços de solidão. Se soubessem quem sou o que pude e não o que busco. Que sou tudo menos o tanto que perdi enquanto tentava ser sombra. Que dói o olhar no retrovisor e perceber as notícias que não mandei para o futuro e os jornais anunciando as minhas maiores renúncias. Se soubessem do medo de fracassar de virar estudo de caso no laboratório de párias de ser pisado pelas intenções e não receber visita alguma de qualquer ou de vós todos que me ocupam a lembrança. Ah se vocês todos soubessem como faz diferença um olhar sem espadas.

As feridas da narradora não cessam, não curam, seguem abertas até que nos cresça uma fagulha de empatia. Empatia pelos dias horríveis, pelas perdas, pelos julgamentos, pela loucura e todos os pensamentos danosos que nos perseguem e que nós fugimos no jogo de existir.

Não espere que entendam tua loucura. Se você ama sem filtro, se você viaja sem mapas, se você celebra vitórias alheias, se você não se importa com a derrota de quem você não gosta, se você não cansa quem te ama, se você comemora datas que não existem no calendário, se você propaga as boas novas antes que elas aconteçam. [...] É que ninguém jamais entenderá tua loucura e o quão alucinados são os caminhos que te levam à tua plenitude. 

FURTADO, Ithalo. Dolores: e os remédios pra dormir. Sieart Gráfica e Editora. 2016.

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