O falador (El hablador, no original), publicado em 1987, é um romance do escritor peruano Mario Vargas Llosa. A obra alterna entre dois fios narrativos, de um lado, um narrador-personagem, linguista que evoca sua juventude em Lima e a amizade com Saúl Zuratas, colega antropólogo da universidade.
Saúl, apelidado de Mascarita por causa de uma mancha de nascença que lhe cobre parte do rosto, é um jovem judeu peruano fascinado pelos Machiguengas (Matsigenka), etnia indígena da Amazônia peruana. Esse fascínio o leva a defender a tribo, opondo-se aos projetos imperialistas que constantemente contaminam o Sul global.
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| Chuck Clark |
O Padre Branco estava estirado em sua esteira e o viam fazer caretas. Atchim! Atchim! Quando se aproximavam para perguntar-lhe "O que é que tem? Por que entorta assim a cara? Que ruídos são esses?"', respondia: "Não é nada, já vai passar." O dano tinha se metido na alma de todos. Crianças, mulheres, anciães. E também, dizem, as araras, os paujiles, os porquinhos-do-mato, as perdizes, todos os animais que tinham. Eles também: At-chim! Atchim! Riam, no princípio. Achavam que era como uma mareada alegre. [...] Tinha passado o tempo. Já suas almas, quebradas em pedaços, tinham começado a sair de seus corpos pelo alto de suas cabeças. Só lhes restava resignarem-se ao que sucederia. (p. 50)
O trecho acima, por exemplo, recorda as epidemias durante e pós-invasão de europeus, que dizimaram tribos por toda a América. Anos mais tarde, outras ameaças foram surgindo, como a invasão de territórios indígenas para extração de recursos naturais e os desafios do narcotráfico intercontinental.
A vida mudou naquela região, sim, mas não em direção ao incremento do turismo. Surgiram primeiro os poços de petróleo, aqueles acampamentos para os quais foram contratados como peões muitos campas, yaminahuas, piros e também, certamente, machiguengas. Depois, ou ao mesmo tempo, o tráfico de drogas começou a se estender pela Amazônia, como uma peste bíblica, sua rede de plantação de coca, laboratórios e aeroportos clandestinos e, conseqüência lógica, sobrevieram as periódicas matanças, os acertos de contas entre bandos rivais de colombianos e peruanos, a queima de plantações, as expedições de caça e busca da polícia. (p. 208)
A história oral que tece o fantástico latino-americano
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| Ritual ilustrado |
Kashiri desceu à terra e viu a jovem no rio. Banhava-se, cantando. Aproximou-se dela e jogou um punhado de terra que lhe bateu no ventre. Zangada, ela começou a apedrejá-lo. Começara a chover, de repente. Kientibakori estaria na selva, dançando, cheio de masato. "Mulher louca", dizia a lua à jovem, "atirei barro em você para que tenha um filho." [...] A jovem ficou prenhe. Mas, quando lhe tocou parir, morreu. Também morreu o filho dela. Os machiguengas teriam ficado furiosos, então. Apanhariam suas flechas, suas facas. Iriam até Kashiri e dizendo-lhe "Tem que comer este cadáver" eles o cercariam. E o ameaçariam com seus arcos, fariam com que cheirasse seus enjeitados. A lua resistiria, tremendo. E eles: "Coma-o, tem que comer o morto."
Por fim, chorando, com uma faca abriria o ventre de sua mulher. Ali estava a criança, faiscando. Tirou-a e ela ressuscitou, parece. Mexia-se e berrava, agradecida. Viva estava. Ajoelhado, Kashiri começou a comer o corpo da esposa pelos pés. (p. 103)
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| Xamã Matsigenka |
A obra em questão vai nos revelar a riqueza cosmológica e histórica dos machiguengas, transmitidas, não somente pelo personagem, mas também pelo próprio autor, Mario Vargas Llosa, um falador contemporâneo.
LLOSA, Mario Vargas. O falador. Editora Francisco Alves, 1988
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