Em junho de 1969, Mario Jimenéz trocou o ofício de pescador pelo de carteiro. Com sua bicicleta, ele entregava cartas, encomendas e telegramas na enseada Isla Negra, onde a maioria era analfabeta. No entanto, com Pablo Neruda na vizinhança, era muito claro que as cartas tinham um destinatário em especial (e único) naquela porção norte de San Antonio, no litoral do Chile.
À beira do Oceano Pacífico é o lugar de fala e leitura de Ardiente Paciencia, o primeiro título da obra que, posteriormente foi alterada para El cartero de Neruda (O Carteiro e o Poeta), publicada em 1985 por Antonio Skármeta (1940-2024). Contemporâneo de Pablo Neruda (1904-1973), Skármeta nasceu em Antofagasta nos anos 40 e, neste livro, fica claro a admiração pelo poeta chileno.
O Carteiro e o Poeta
O Carteiro e o Poeta é uma ficção feita com todo cuidado, quase como uma ode-prosa aos últimos anos de Neruda, respeitando o seu legado literário e político. Graças ao carteiro Mario Jimenéz, peça fictícia e chave para a vida privada do poeta neste romance, somos convidadas a conhecer sua casa de praia, chamada de Isla Negra, adquirida em 1939.
- Tem cartas para o poeta?
- Muitas. E também um telegrama.
- Um telegrama?
O garoto o levantou, tentou discernir seu conteúdo na contraluz e num minuto estava na rua montado na sua bicicleta. Já ia pedalando quando Cosme gritou na porta com o resto da correspondência na mão.
- Ficaram as outras cartas!
- Levo depois - disse, distanciando-se.
- Você é um bobo - gritou Dom Cosme. - Vai ter que fazer duas viagens.
- Não sou nenhum bobo, chefe. Assim eu vejo o poeta duas vezes. p.29
Gravou o movimento do mar com a dedicação de um filatelista.
Reduziu sua vida e seu trabalho […] para seguir os vaivéns da maré alta, o refluxo e a água saltitante animada pelos ventos.
Amarrou o Sony num cordão e o infiltrou entre as gretas das pedras onde esfregavam suas Terezas os caranguejos e os huiros que se abraçavam as pedras. p.85
Há muito tempo, lá longe,pisei num país tão claroque até a noite era fosforescente:continuo ouvindo o rumor daquela luz,âmbar redondo é todo o céu:o açúcar azul sobe do mar.
Trecho de El Sol em Geografía Infructuosa (1971)
1973, Câncer, Allende, Golpe Militar e el fin
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| Estátua de Salvador Allende (Foto: Matías Villacura) |
Um secreto rumor revelava-se agora no trepidante arquejar de seu sangue, essa água negra que era germinação, que era a escura artesania de suas raízes, sua secreta ourivesaria de noites frutuosas, a convicção definitiva de um magma a que tudo pertencia, aquele que todas as palavras buscavam, espreitavam, rondavam sem nomear ou nomeavam calando (a única coisa certa é que respiramos e deixamos de respirar, dissera o jovem poeta sulista despedindo-se com a mão, que havia apontado um cesto de maçãs debaixo da mesa fúnebre): sua casa diante do mar e a casa de água que agora levitava fresca por detrás desses vidros que também eram água, seus olhos que também eram a casa das coisas, seus lábios que eram a casa das palavras [...]Eu volto ao mar envolto pelo céu,o silêncio entre uma e outra ondaestabelece um suspense perigoso:morre a vida, se aquieta o sangueaté que rompe o novo movimentoe ressoa a voz do infinito.Mario abraçou-o pelas costas e, levantando as mãos para cobrir suas pupilas alucinadas, disse:- Não morra, poeta. p.120
pouco a pouco e também muito a muitome aconteceu a vida,e que insignificante é este assunto:estas veias levaramsangue meu que poucas vezes vi,respirei o ar de tantas regiõessem guardar para mim uma amostra de nenhume afinal de contas já o sabem todos:ninguém leva nada de seue a vida foi um empréstimo de ossosTrecho de Pleno Outubro em Isla Negra (1964)

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