sábado, 19 de setembro de 2026

Os últimos anos de Pablo Neruda em O carteiro e o poeta (Skármeta)

Em junho de 1969, Mario Jimenéz trocou o ofício de pescador pelo de carteiro. Com sua bicicleta, ele entregava cartas, encomendas e telegramas na enseada Isla Negra, onde a maioria era analfabeta. No entanto, com Pablo Neruda na vizinhança, era muito claro que as cartas tinham um destinatário em especial (e único) naquela porção norte de San Antonio, no litoral do Chile.

À beira do Oceano Pacífico é o lugar de fala e leitura de Ardiente Paciencia, o primeiro título da obra que, posteriormente foi alterada para El cartero de Neruda (O Carteiro e o Poeta), publicada em 1985 por Antonio Skármeta (1940-2024). Contemporâneo de Pablo Neruda (1904-1973), Skármeta nasceu em Antofagasta nos anos 40 e, neste livro, fica claro a admiração pelo poeta chileno.

O Carteiro e o Poeta

O Carteiro e o Poeta é uma ficção feita com todo cuidado, quase como uma ode-prosa aos últimos anos de Neruda, respeitando o seu legado literário e político. Graças ao carteiro Mario Jimenéz, peça fictícia e chave para a vida privada do poeta neste romance, somos convidadas a conhecer sua casa de praia, chamada de Isla Negra, adquirida em 1939.

- Tem cartas para o poeta?

- Muitas. E também um telegrama.

- Um telegrama?

O garoto o levantou, tentou discernir seu conteúdo na contraluz e num minuto estava na rua montado na sua bicicleta. Já ia pedalando quando Cosme gritou na porta com o resto da correspondência na mão.

- Ficaram as outras cartas!

- Levo depois - disse, distanciando-se.

- Você é um bobo - gritou Dom Cosme. - Vai ter que fazer duas viagens. 

- Não sou nenhum bobo, chefe. Assim eu vejo o poeta duas vezes. p.29

Entre uma visita e outra ou uma carta que desperta curiosidade em Mario, ficamos sabendo sobre a indicação ao Nobel, a candidatura e também a desistência, cedendo a elegibilidade ao camarada Salvador Allende, em 1971, e o período longe do sul do mundo, atuando como representante diplomático de seu país na França.

O período longe do Oceano Pacífico causa no poeta uma melancolia profunda. Na ficção de Skármeta, seu amigo Mario fica responsável por acalentar o coração do poeta com uma gravação de cada canto de sua terra, que seria enviada à França.
Gravou o movimento do mar com a dedicação de um filatelista. 
Reduziu sua vida e seu trabalho […] para seguir os vaivéns da maré alta, o refluxo e a água saltitante animada pelos ventos. 
Amarrou o Sony num cordão e o infiltrou entre as gretas das pedras onde esfregavam suas Terezas os caranguejos e os huiros que se abraçavam as pedras. p.85
Na vida real, Dom Pablo, como chamado no livro, renunciou à Embaixada na França e regressou à sua terra, a terra do sol, da brisa do mar e dos pescadores. Essa elegia, tratando da saudade do Chile, somou à bibliografia do poeta o livro Geografía Infructuosa (1971), publicado pela editora Losada, mencionada no livro por inúmeras vezes e importante suporte editorial do poeta.
Há muito tempo, lá longe,

pisei num país tão claro

que até a noite era fosforescente:

continuo ouvindo o rumor daquela luz,

âmbar redondo é todo o céu:

o açúcar azul sobe do mar. 
Trecho de El Sol em Geografía Infructuosa (1971)

1973, Câncer, Allende, Golpe Militar e el fin

Estátua de Salvador Allende na capital chilena.
Estátua de Salvador Allende (Foto: Matías Villacura)
Adoecido por um câncer de próstata, os últimos dias do escritor também são sentidos pelo carteiro Mario. Além dele, toda população chilena sente, com a ferida recém-aberta do Golpe Militar e suicídio do presidente Salvador Allende no Palacio de la Moneda em 11 de setembro de 1973.
Um secreto rumor revelava-se agora no trepidante arquejar de seu sangue, essa água negra que era germinação, que era a escura artesania de suas raízes, sua secreta ourivesaria de noites frutuosas, a convicção definitiva de um magma a que tudo pertencia, aquele que todas as palavras buscavam, espreitavam, rondavam sem nomear ou nomeavam calando (a única coisa certa é que respiramos e deixamos de respirar, dissera o jovem poeta sulista despedindo-se com a mão, que havia apontado um cesto de maçãs debaixo da mesa fúnebre): sua casa diante do mar e a casa de água que agora levitava fresca por detrás desses vidros que também eram água, seus olhos que também eram a casa das coisas, seus lábios que eram a casa das palavras [...]

Eu volto ao mar envolto pelo céu,
o silêncio entre uma e outra onda
estabelece um suspense perigoso:
morre a vida, se aquieta o sangue
até que rompe o novo movimento
e ressoa a voz do infinito.

Mario abraçou-o pelas costas e, levantando as mãos para cobrir suas pupilas alucinadas, disse:

- Não morra, poeta. p.120
Pablo, junto à Matilde Urrutia, sua companheira, viajaram a Santiago para tratamento médico. Em 23 de setembro de 1973, morre Pablo Neruda, um dia antes de sua viagem ao México, país em que se exilaria.
pouco a pouco e também muito a muito
me aconteceu a vida,
e que insignificante é este assunto:
estas veias levaram
sangue meu que poucas vezes vi,
respirei o ar de tantas regiões
sem guardar para mim uma amostra de nenhum
e afinal de contas já o sabem todos:
ninguém leva nada de seu 
e a vida foi um empréstimo de ossos

Trecho de Pleno Outubro em Isla Negra (1964)
Fora desta ficção, revelaram-se, pares e mais pares de décadas depois, exames comprovando que Neruda havia sido envenenado na Clínica Santa María. Após o assassinato do poeta, Matilde, dedicou-se à publicação clandestina de suas obras no Chile e demais ditaduras latino-americanas, incluindo o Brasil. 

E quanto ao carteiro, o amigo fictício? Numa madrugada de insônia, Mario Jiménez é convocado para uma chamada "diligência de rotina". Um homem de bigode lhe assegura serão apenas algumas perguntas e logo voltará para casa. Enquanto, no rádio, anunciava-se a invasão militar à Editora Nacional Quimantú, dando fim a publicações de cunho cultural e ideológico. Nesta mesma época, Skármeta exilava-se na Alemanha, retornando à sua nação apenas em 1989. 

Um ano depois, 1990, chegava ao fim a Ditadura Pinochet, que registrou mais de 3 mil mortos, mil desaparecidos e uma soma cruel de 37 mil cidadãos torturados. Para nunca mais acontecer.


SKÁRMETA, Antonio. O carteiro e o poeta. Tradução: Beatriz Sidou. Rio de Janeiro, Record, 1996.

Nenhum comentário:

Postar um comentário